Contato mãe único número

Contato mãe e recém-nascido e amamentação O contato pele a pele (CPP) consiste na colocação do RN despido no colo também despido de sua mãe1,2. Estudos demonstram que recém-nascidos (RN) em boas condições de vitalidade ao nascer, quando colocados imediatamente no colo materno, têm uma melhor transição da vida fetal para o meio Como saber o número do Bilhete Único com o RG ou CPF. Caso você não esteja com o cartão de transporte em mãos na hora que precisar fazer uma recarga, ou se o número não estiver disponível, não se preocupe! É possível descobrir o número do Bilhete Único usando o seu RG ou CPF inserindo seus dados abaixo. A mãe só se deu conta da confusão quando recebeu uma mensagem de texto de um colega de trabalho que dizia “obrigada pelo nu”. Depois disso, Emily percebeu que ele não tinha sido o único a receber as fotografias. “Fiquei mortificada. Eu literalmente acho que morri por um minuto e depois voltei à vida para poder contar às pessoas o ... Atenda ligações de todo o Brasil a custo de ligação local com Número Único Nacional 3003, 4003 ou 4004. Clique aqui e saiba mais sobre nossa solução. oliveira et al. estácio saúde, volume 9, número 1, 2020 8 contato precoce pele a pele entre mÃe e recÉm-nascido: contribuiÇÕes da enfermagem em uma maternidade de sÃo josÉ/sc early contact skin between mother and newborn: contributions of nursing in a maternity of sÃo josÉ / sc Trata-se, portanto, de um único número de visualizações da página respetiva por visitantes reais. O fórum é moderado? A conversa sobre números de telefone é parcialmente moderada. Todos os dias são adicionados milhares de comentários no fórum e por isso, não é possível controlar cada um dos comentários. Tratamos, então ... Olá, seja bem vindo. Se você chegou até está página, então muito provavelmente você está em busca de entrar em contato com alguma pessoa de nosso time, então, fique a vontade para entrar em contato com nossa equipe, seja para tirar suas dúvidas, ou enviar sugestões e críticas, lhe ouvir, será um enorme prazer e apenas contribuirá para o trabalho que realizamos aqui no ENCCEJA.ME. Os Horários de atendimento para esse número são: Segunda a sexta , das 7h às 20h. Sábados das 7h às 13h PETRÓPOLIS. Em Petrópolis o usuário que pretende obter informações sobre gratuidade usando o sistema RIOCARD / BILHETE ÚNICO pode usar o número a seguir para realizar o cadastramento prévio e agendamento – (24) 2103-5100. SPTrans bilhete único mensal empresa. Como não podia deixar de ser, a Sptrans também disponibiliza o bilhete único para empresas. Desse modo, o sptrans bilhete empresa, chamado Vale-Transporte é o benefício concedido pelo empregador, para uso exclusivo dos seus funcionários.. Sendo assim, torna-se possível à empresa calcular os custos mensais da utilização do cartão e atender às ... Um bebê de menos de 1 ano de idade, chamado Martin, foi o único sobrevivente de um acidente aéreo nesta semana. Um avião HK 2335-G, que fazia o trajeto Santa Marta – Guaymaral, na Colômbia, caiu na terça-feira (13), algumas horas depois da decolagem. À bordo, a mãe da criança, a babá do neném e o pai, que pilotava a aeronave.

Crítica cinematográfica do filme Mogli - O Menino Lobo (2016) do Jon Favreau.

2020.08.01 20:03 hebreubolado Crítica cinematográfica do filme Mogli - O Menino Lobo (2016) do Jon Favreau.

Os Livros da Selva é uma coletânea de contos do universo criado por Rudyard Kipling (1865–1936). Os dois Livros somam o total de quinze contos. Este filme adapta (ou ao menos tenta adaptar) de uma forma bastante recortada alguns contos que têm Mowgli como protagonista (importante ressalvar que não são todos os contos de Os Livros da Selva que têm o menino lobo como protagonista, alguns sequer se passam na Selva, ex: A Foca Branca, conto de número 4 na edição Clássicos da Zahar). Eu percebi inspirações no conto “Os irmãos de Mowgli”, o primeiro do universo do Kipling, “A Caçada de Kaa”, que narra o sequestro de Mowgli pelo Bandar-logo, o Povo Macaco, e “Como surgiu o Medo”, o conto mais mitológico em minha opinião, que narra o período de seca da Selva que os animais chamam de Trégua da Água. Em minha crítica, irei estabelecer algumas comparações do filme com a obra original do Kipling com objetivo de defender a opinião de que: enquanto um filme de animação, é um filme muito bem produzido, dirigido e criado, porém, enquanto adaptação cinematográfica de uma obra literária, deixou tanto a desejar, de tal forma que me faz acreditar que trata-se mais de uma adaptação da animação da própria Disney de 1967 do Wolfgang Reitherman do que uma adaptação da obra de Kipling, como veremos mais à frente. Para estabelecer essas comparações, utilizarei o meu exemplar de Os Livros da Selva: contos de Mowgli e outras histórias, da editora Zahar, publicado no ano de 2016, traduzido por Alexandre Barbosa de Souza.
Nota IMPORTANTÍSSIMA: compreendo e sou da opinião de que cinema e literatura são artes distintas e que possuem linguagens diferentes; também concordo que nenhuma adaptação é 100% fiel à obra literária, nem mesmo o tão renomado O Senhor dos Anéis; porém, quando usa-se o nome de um autor como fonte e principalmente sua obra como inspiração, é necessário o devido respeito à propriedade intelectual e criadora, não somente por questões jurídicas, mas por questões éticas. Sob esta premissa, vamos às comparações.
ATENÇÃO: Como trata-se de uma análise do filme, recomendo que a crítica seja lida somente por pessoas que já assistiram o filme. Se você também leu o livro e é um admirador da obra do Kipling e do que ela representa, será uma leitura ainda mais profunda.
O filme tem uma animação muito bonita; não entendo de cinema em termos técnicos, mas sem dúvidas trata-se de uma película bastante agradável de se assistir. Fora a animação de altíssima qualidade, as cores, personagens e músicas fazem do filme bastante agradável de se ver e rápido de assistir também. Incomoda-me em um filme que possui uma proposta infantil (a recomendação aqui no Brasil é para maiores de 10 anos de idade) hajam os famigerados Jump-scare. Imagine você sentado na sala assistindo com seu filho uma cena do Mowgli em um pasto verde e calmo e de repente BAM! Um tigre salta de trás da tela rugindo e fazendo um estardalhaço enorme. O recurso de jump-scare é, até mesmo em filmes adultos como no gênero de terror e suspense, considerado um recurso de baixa qualidade e previsível. Contei ao todo dois jump-scares no filme.
Em uma das primeiras cenas do filme vemos Mowgli, já na idade de menino (idade esta que permanece durante todo o filme. No último conto do Kipling, “A Corrida da Primavera”, ele já possui dezessete anos), assistindo uma assembléia dos lobos, que discutem se sua presença na alcateia deve ou não ser tolerada. Aqui já podemos perceber uma mudança drástica na história original: nos livros, Mowgli simplesmente aparece onde a alcateia Seonee vive, não levado por Bagheera como no filme retrata um pouco mais a frente. Akela e o lobo que criou Mowgli são dois lobos diferentes, não o mesmo: este último aparece nos contos com o nome de Pai Lobo apenas. Akela em hindi significa solteiro, solitário, o que não faz sentido colocá-lo como pai de Mowgli e dono de uma família. A intimidação do tigre Shere Khan provoca aos lobos foge do nosso autor britânico da mesma forma: enquanto que no filme o tigre não apenas mata Akela com um único golpe mas domina toda o bando, nos livros ele é intimidado pelos caninos.
“[…] Shere Khan talvez tivesse enfrentado Pai Lobo, mas não desafiaria Mãe Loba, pois sabia que, ali onde estava, ela tinha a vantagem do terreno e lutaria até a morte. Por isso voltou atrás, rosnando ao deixar a boca da caverna […]” (KIPLING, p. 33).
Bagheera e Shere Khan travam uma batalha durante a escolta de Mowgli em retorno para a vila dos homens; nos livros, essa luta nunca aconteceu.
Ao encontrar com os elefantes, a pantera negra pede para que Mowgli se ajoelhe e o informa da importância desses terríveis elefantídeos na criação e manutenção da Selva. Esse aspecto deve ser parabenizado por ter sido incorporado no filme: Kipling retratou os elefantes como a força criadora da Selva, e sendo Hathi, O Silencioso, o mais antigo deles. Embora a curtíssima cena tenha deixado implícito a importância dos elefantes, senti falta do personagem de Hathi, que é de suma importância em todos os contos que ocorrem na Selva.
“[…] Quando Hathi, o elefante selvagem, que vive cem anos ou mais, viu uma longa e esguia faixa de rocha seca bem no meio do rio, entendeu que estava olhando para a Pedra da Paz e, na mesma hora, ergueu sua tromba e proclamou a Trégua da Água, como seu pai antes dele havia proclamado cinquenta anos atrás.” (KIPLING, p. 185).
“[…] Shere Khan foi embora sem ousar rosnar, pois sabia, assim como todo mundo, que, no final das contas, Hathi é o Senhor da Selva” (KIPLING, p. 191)”.
O antagonismo inexistente de Kaa: a temível Píton é apresentada no filme como uma vilã que, após revelar a história de Mowgli para ele, tenta devorá-lo. Este personagem também foi desconstruído e teve sua personalidade alterada, assim como vários outros, que comentarei mais à frente. Nos livros, a píton é vista como um animal sábio e astuto, mas que respeita Mowgli como o Senhor da Selva que ele se tornou. A primeira vez que ele é mencionado na obra é no conto “A Caçada de Kaa”, aquele citado mais acima, que retrata o sequestro de Mowgli. Percebendo sua incapacidade de perseguir o Bandar-Log, o Povo Macaco, Baloo e Bagheera decidem pedir ajuda à píton em troca de alguns cabritos. Após relembrar Kaa de que o Bandar-log costumava chamá-lo de perneta, minhoca amarela, a pantera e o urso acabam convencendo a píton a se unir à eles na caçada aos macacos para resgatar Mowgli. O antagonismo de Kaa no filme pode ter várias explicações (que infelizmente só nos seriam acessível diretamente pelo diretor ou roteirista), porém, me parece que colocar uma cobra como vilã é um reforço de um esteriótipo medíocre. A cobra malvada. Não, sr. Favreau, isto não existe no universo de Kipling. Muito embora astuto e um caçador destemível, Kaa não apenas ajuda nesse conto em específico como também em “Cão Vermelho”, quando auxilia Mowgli na batalha contra dos lobos contra os cães vermelhos, chamados de dholes (inclusive, é nesse conto que Akela morre devido à feridas causadas na batalha contra os dholes, diferentemente da sua morte estúpida no filme com uma só mordida de Shere Khan, o que nos demonstra uma ideia bastante frágil de um lobo alfa que deveria estar a frente de sua alcateia e portanto, se o mais forte entre todos os lobos. Akela morre com pelos brancos como neve, ressaltando sua idade avançadíssima). Neste conto, Kaa fornece a Mowgli ideias de como combater e sair em vantagem contra os dholes, além de protegê-lo no rio durante o seu percurso e ser também ativo no plano de Mowgli para emboscar os dholes na toca das abelhas, etc etc.
Nem é preciso informar que não, Baloo não salvou Mowgli de ser comido por Kaa em Os Livros da Selva. Ainda no primeiro conto, “Os irmãos de Mowgli”, o Conselho da Alcateia está decidindo o destino do filhote de homem. A Lei da Selva, código de ética e moral que rege a todos os povos livres com exceção do Bandar-log, intercede a favor de Mowgli:
“Pois bem, a Lei da Selva dispõe que, em caso de disputa do direito sobre um filhote a ser aceito pela alcateia, pelo menos dois membros, além do pai e da mãe, devem interceder ao seu favor.” (KIPLING, p. 35). Adivinhe quem fala por Mowgli além dos seus pais lobos? Isso mesmo. O velho Baloo, encarregado de ensinar a Lei da Selva para os filhotes, fala em nome do menino. Sendo assim, falta apenas mais um voto. Baloo era o único fora da alcateia que tinha direito de falar no Conselho; sendo assim, restava convencer um lobo entre a alcateia para que Mowgli fosse aceito.
Porém, não foi isso que aconteceu: Bagheera intercede e, não podendo votar por não ser parte da Alcateia Seonee, argumenta em cima da Lei da Selva:
“ — Ó Akela, ó Povo Livre — ronronou -, não tenho voto na assembléia de vocês, mas a Lei da Selva diz que, não se tratando de um caso de morte, se existe uma dúvida quanto a um novo filhote, a vida dele pode ser comprada por um certo preço. E a lei não diz nada sobre quem pode ou não pagar esse preço. Estou certo?
[…] — Agora, além do voto de Baloo, acrescento um touro, e um bem gordo, que acabei de matar a menos de um quilômetro daqui, para que o filhote de homem seja aceito de acordo com a lei. Seria possível?” (KIPLING, p. 35–36). Oferta esta que o Povo Livre aceitou prontamente. Concluímos, portanto, que Baloo não apenas conheceu Mowgli desde sua chegada na Alcateia Seonee, mas foi o responsável, junto com Bagheera, por sua aceitação na alcateia. Esta alteração no roteiro do filme pode ser explicada pelo fato de que a linguagem do cinema requer algo mais dinâmico e rápido que os detalhes da literatura. Foi a forma do Favreau contar como Mowgli chegou na Selva e introduzir Baloo no filme, dois coelhos em uma cajadada só, como dizem por aí.
“E foi assim que Mowgli entrou para a Alcateia dos Lobos de Seeonee, ai preço de um touro e graças às palavras favoráveis de Baloo.” (KIPLING, p. 37) A ausência nos filmes desse aspecto da história faz com que a obra tenha um déficit e deixe de retratar uma parte bastante importante nos contos de Kipling: as reflexões filosóficas por trás do conto, tais como: o valor de uma vida entre os lobos, o conceito de moralidade (certo e errado), o valor de um homem, a questão da Lei da Selva sendo usada na prática (o que no filme não passa de uns versos engraçados que são recitados em uma decoreba), etc.
A mudança da personalidade de Baloo no filme é o que mais me irrita nessa adaptação: nos contos de Kipling, Baloo é o professor da lei da selva, como citei mais acima, e no filme, quando ele pergunta a Mowgli se os lobos cantam, o menino responde negativamente e recita para ele a Lei da Selva (dialogo que acontece no minuto 40 do filme, aproximadamente) , Baloo responde “Aí, isso não é uma canção. É um monte de regra!” FAVREAU, AMADO??
Transformar o professor da Lei em um urso trapalhão reforça o fato de o filme ser uma adaptação do filme da Disney, como citei mais acima, e acabou empobrecendo o roteiro no que diz respeito aos conceitos profundíssimos que Kipling introduz através de Baloo, desde a importância da sociedade e união (no conto “A Caçada de Kaa”), as lições que acompanharam a educação do garoto desde que ele tinha entre onze e quinze anos e até mesmo os detalhes da própria Lei da Selva, que no filme os lobos simplesmente recitam aos quatro ventos, e nos contos é aprendida desde filhotinhos pela boca do próprio Baloo.
No conto “Tigre! Tigre!”, após Mowgli decidir sair da alcateia e ir para a vila dos homens, realmente Shere Khan influencia os filhotes e habita a Pedra do Conselho, como mostrado no filme, mas esse reinado sobre os lobos dura apenas algumas páginas, ao passo de que quando Mowgli retorna para a Selva (a sua estadia na vila dos homens também foi omitida no filme), acaba dando um jeito no tigre, mas isso trataremos mais a frente.
A cena de Mowgli salvando o filhote de elefante também não existe nos contos. Também me incomoda a incapacidade de falar dos elefantes, visto que todo bicho na selva, na obra de Kipling, tem essa capacidade. Os elefantes são inteligentes como todos os outros e seu líder, Hathi, como já dito mais acima, não apenas era o mais inteligente de todos, mas o verdadeiro Senhor da Selva e criador da própria.
As engenhocas de Mowgli realmente são importantes nos contos, como no filme mostra, mas a motivação do sequestro não foi a Flor Vermelha, tão desejada pelo Rei Louie. Essa cena é tão distante da obra e das intenções do Kipling que merece, mais que todas as outras, ser tratada com mais detalhes:
Primeiro, O REI LOUIE NÃO EXISTE! Uma das características mais importantes do Bandar-log é sua incapacidade de ser organizados socialmente, por isso não têm líder. No filme, criar um personagem e colocá-lo no cargo de líder do Bandar-log acaba desconfigurando o mesmo e também o desconstruindo, o que aconteceu aconteceu com vários personagens, como vimos acima.
“- Escute, filho de homem — rugiu o urso, e sua voz ressoou como o trovão numa noite quente. — Ensinei a você a Lei da Selva inteira, que vale para todos os Povos da Selva, menos para o Povo Macaco que vive nas árvores. Eles não têm lei. São marginais. Não têm fala própria, mas usam palavras roubadas que ouvem por aí enquanto espiam e esperam no alto dos galhos. Os costumes deles são diferentes dos nossos. Eles não têm líder. Não têm lembranças. São bravateiros, fofoqueiros e fingem ser os maiorais e estar sempre prestes a desempenhar grandes feitos na selva, mas é só uma noz cair no chão que desatam a rir e se esquecem de tudo. Nós da selva não queremos nada com eles. Não bebemos onde os macacos bebem, não vamos aonde os macacos vão, não caçamos onde eles caçam, não morremos onde eles morrem. Alguma vez você me ouvir falar do Bandar-log até hoje?
- Não — respondeu Mowgli num sussurro, pois a floresta ficou muito quieta quando Baloo terminou.
- O Povo da Selva os mantém longe das bocas e das cabeças. Eles são muitos, maus, sujos, despudorados e desejam, se é que se concentram em algum desejo, ter a atenção do Povo da Selva. Mas nós não prestamos atenção neles nem quando atiram nozes e porcarias em nossas cabeças.” (KIPLING, p. 54). Segundo: a motivação do Bandar-log em sequestrar Mowgli não era para ter a flor vermelha, isto é, o fogo, e se espalhar pela floresta, mas sim simplesmente ter a atenção do Povo da Selva e usar as engenhocas de Mowgli ao seu favor. Nesse trecho que se segue, vemos mais uma vez a incapacidade de terem um líder, por isso a impossibilidade de existir um Rei Louie, dentre outros defeitos bastante característicos do povo macaco:
“ […] Eles viviam no topo das árvores, e, como os bichos raramente olham para cima, os macacos e o Povo da Selva nunca se encontravam. […] Estavam sempre a um passo de ter um líder, suas próprias leis e seus costumes, mas nunca chegavam a fazê-lo, pois sua memória não durava de um dia para o outro […]. Nenhum dos bichos conseguia alcançá-los, mas, em compensação, nenhum dos bichos lhes dava atenção, e foi por isso que ficaram tão contentes quando Mowgli foi brincar com eles e ouviram como Baloo tinha ficado bravo.
Nunca aspiraram realizar coisa alguma — no fundo, o Bandar-log nunca aspira a nada -, mas um deles teve o que lhe pareceu uma ideia brilhante e contou os outros que Mowgli seria muito útil para a tribo, porque sabia amarrar gravetos para protegê-los do vento; então, se o capturassem, poderiam obrigá-lo a lhes ensinar como fazê-lo” (KIPLING, p. 55). O conto “A Caçada de Kaa” inicia-se com Baloo repassando algumas lições para Mowgli até perceber que ele esteve com o Povo Macaco. Durante um sermão (o diálogo citado acima que começa com “escute, filhote de homem”), Mowgli é sequestrado pelos macacos, Baloo e Bagheera tentam correr atrás dele, mas acabam pedindo ajuda a Kaa, como citado mais acima. A mudança na personalidade do Bandar-log, a criação de Rei Louie e a mudança no roteiro original da história no que toca à motivação do sequestro dos macacos é o pico do distanciamento entre o filme e sua obra inspiradora. No entanto, gostaria de confessar aqui que o Rei Louie era o meu personagem favorito na animação de 1967 e a musiquinha dele é realmente contagiante, haha! A motivação para manter o Rei Louie nessa versão do filme me parece mais uma demonstração de que trata-se de uma adaptação do filme da disney de 1967, e não da obra do Rudyard Kipling. A minha crítica em relação a permanência do Rei Louie é justamente por se tratar de uma das características do Bandar-log a falta de líder. No prefácio desta edição de Os Livros da Selva que tenho em mãos, o tradutor relata o simbolismo profundo por trás do Bandar-log, o que no filme ficou ofuscado, escondido e, ouso dizer, inexistente: “ Nessa estrutura social, há o nível mais baixo de todos. Nele estão justamente os parentes mais próximos dos humanos, considerados incapazes de aprimorar a organização interna de sua sociedade. Com evidente ironia, Kipling identifica o Povo Macaco com a antítese de um real esforço de construção do bem-estar coletivo. […]” (Apresentação, p. 10) o parágrafo segue-se citando o sermão de Baloo, também citado por mim acima várias vezes, aquele mesmo que começa com “escute, filhote de homem”, onde Baloo explicita com todas as letras. A cena terrível de Baloo praticando psicologia reversa em Mowgli para que ele pense que não é amado e parta para a vila dos homens de uma vez por todas é de revirar o estômago para todo leitor de Kipling. Baloo tem uma relação não apenas de amizade com Mowgli, mas também de respeito mútuo e servidão, visto que nos últimos contos Mowgli é visto como o Senhor da Selva por todos os animais, até mesmo o próprio Hathi, o mais antigo deles. Nos contos, Mowgli decide para a vila dos homens após perceber que não era mais bem-vindo na alcaeteia seeonee (isto porque Shere Khan influenciava os lobos menores e os atiçava contra Mowgli e, tendo seus pais morrido, somente Akela estava alí para interceder por ele, e sendo já um lobo idoso, não tinha muita voz contra os muitos lobos jovens fantoches do tigre), retornando apenas para dar um jeito no Shere Khan, que estava dominando a alcateia (eu vou chegar lá, calma!), e esta parte da obra também contém um simbolismo bastante profundo, mostrando a dualidade do homem entre seus instintos animais e sua civilidade que, de certa forma, acaba castrando estes mesmos instintos. Podemos interpretar de várias formas os dos “Mowglis” que aparecem nos contos de Kipling, como a dualidade presente no homem de sua razão e suas emoções, representados pelo Mowgli na Selva, sobrevivendo através de seus instintos, e o Mowgli na vila dos homens, submetido à fala dos homens, vivendo como homens nas regalias da tecnologia (não ipods ou tablets, e sim uma simples cama e uma cabana. Lembremos que tecnologia vem do grego techne, que significa arte, e logos, que significa ciência. O conceito significa, entre outros, técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular e/ou técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular). Toda essa reflexão acerca da dualidade do homem, dos dois mundos — a Selva e a vila dos homens -, tudo isso é omitido nos filmes. A cena de Mowgli na vila dos homens tem uma duração de menos de 30 segundos. O filme força mais uma batalha inexistente: desta vez, Baloo contra Shere Khan. Mais uma vez, essa luta não existe nos contos. Sendo Baloo um urso velho e gordo, muito embora seja o mestre da lei, não possui a competência de lutar com um tigre. Ele não caça, pois se alimenta de mel e plantas. A única cena de luta que existe na obra de Kipling envolvendo o urso se encontra no conto “A Caçada de Kaa”, quando ele ajuda a cobra e a pantera a lutar contra as centenas de milhares de macacos. À propósito, esta cena também foi omitida nos filmes, o que daria uma batalha épica, e substituída por uma cena estúpida onde Baloo bajula o inexistente Rei Louie para distrair os macacos. Mowgli prepara uma tocaia, já no fim do filme, utilizando suas engenhocas e a famosa flor vermelha para matar Shere Khan. Favreau, passou bem longe de novo! No conto “Tigre! Tigre!”, quando Mowgli se encontra na vila dos homens trabalhando como pastor de búfalos, ele usa destes búfalos para encurralar Shere Khan em um defiladeiro utilizando da ajuda do velho Akela e os lobos seus irmãos para tocar o búfalo contra Shere Khan. O tigre, que havia acabado de se alimentar e por isso estava preguiçoso e preferia não lutar, acabou caindo no desfiladeiro ou morrendo pisoteado (Kipling deixa a forma de morte de Shere Khan na ambiguidade). Outro detalhe que foi omitido nos filmes e possui um simbolismo profundo foi o fato de Mowgli ter retirado a pele do tigre e posta na Pedra do Conselho, onde o lobo alfa da alcateia se posta durante os Conselhos, o mesmo lugar onde Shere Khan estava quando dominava a alcateia na ausência de Mowgli. Podemos refletir bastante sobre o que isso pode significar, levando em conta que Shere Khan é a retratação do Mal na obra de Kipling. A representação de Shere Khan foi um dos dois personagens que, na minha opinião, mais se assemelharam aos originais. Mowgli dos livros é um garoto divertido, engenhoso, e ao mesmo tempo brincalhão e bastante curioso. Devido a sua educação, cresceu mais que as crianças da cidade e de uma forma mais forte e saudável. No filme, ele não passa de uma criança entre lobos; insegura, cabisbaixa e bastante incoveniente; não vemos nenhum relato explícito do humor de Mowgli, humor este que chega ao nível de fazer piadas com Kaa e o próprio Hathi, o Senhor da Selva. A mãe-loba de Mowgli teve uma boa representação, porém, senti falta do simbolismo do seu nome, Raksha, que em sânscrito significa “pedir proteção” e, ao mesmo tempo, no budismo trata-se de um demônio, que podemos interpretar como o instinto de proteção da mãe, inato e instintivo, presente em todas as espécies, e ao mesmo tempo, na sua qualidade implacável, forte e até mesmo cruel quando se trata de proteger seus filhos. O simbolismo da mãe loba foi omitido no filme, fazendo dela apenas mais uma personagem. Shere Khan é um tigre manco, e por isso somente mata gados (KIPLING, p. 29), característica essencial para a construção do personagem e também foi omitida no filme. Shere singifica tigre e khan significa chefe no idioma hindu e persa.
No mais, gostaria de reinterar, mais uma vez pois nunca é demais, que concordo com a opinião de que o cinema e literatura são linguagens diferentes e que devem ser respeitadas como o tal, mas, novamente, a partir de um momento que um filme possui a intenção e premissa de ser uma adptação cinematográfica, há coisas que devem ser levadas em conta somente por uma questão de ética e respeito para com a obra do autor. Novamente, deixo meus elogios à direção de arte do filme e qualidade de animação, mas no que toca ao roteiro e à adaptação, eu colocaria esse filme no topo da lista de frustrações, ao lado de Percy Jackson e o Ladrão de Raios. É um filme excelente para assistir com a família e as crianças certamente vão adorar. Lembrem-se, como diria Platão, uma vida sem criticas não vale á pena ser vivida. Forte abraço à todos.
Referências: KIPLING, R. Os Livros da Selva. trad. Alexandre Barbosa de Souza, Rodrigo Lacerda. Clássicos Zahar, SP: 2016.
Wallace Guilhereme. Contato: [[email protected]](mailto:[email protected])
submitted by hebreubolado to brasil [link] [comments]


2020.06.20 19:13 Nqsmn Sinto falta de um amigo da escola

Bem pra começar eu moro no interior de uma cidade, tipo um bairro só que bem isolado, com casas simples e pessoas simples, com o próprio comércio e etc, aqui não é asfaltado, mas pelo menos temos energia elétrica e wi-fi. As pessoas daqui, vão pra cidade grande às vezes por que é lá que tem "as paradas" tipo supermecado, cinema, trabalho e etc... Quando eu tinha uns 6 anos, eu fui estudar em uma escola naquela cidade, foi porque a escola em que fui estudar tem um negócio de que funcionários podem deixar os filhos estudarem lá de graça, a minha mãe teve que mentir que sou o filho do meu padrasto para eu estudar lá kkkkk. A escola era muito boa, era pública mas parecia particular sei lá era estranho, mas concerteza melhor do que a eu estou hoje :/. Agora sobre o amigo, eu conheci ele no segundo ano(vou chamá-lo de EJ) eu e meu outro amigo da época(que vou chamar de jojofag)Viviam zoando o coitado meio que coisa de criança sabe? Mas ele nunca se incomodou de qualquer forma, o EJ gostava muito de Ben10 e vivia desenhando histórias em quadrinhos bem toscas sobre esse desenho, como criança eu achava aquilo impressionante mas aquilo não era nada perto do que ia vir depois. Depois lá pro começo do sexto ano eu e o jojofag brigamos, o motivo? Ele vivia jogando futebol com os novos amigos dele e deixou de conversar comigo, meio que ele era o único amigo meu na época e eu não aceitei isso, fiquei uns recreios sem conversar com ninguém até o EJ aparecer, ele começou a conversar sobre pokémon comigo(que eu adorava na época) e ficamos por assim todo recreio a gente conversava. Lembra que ele desenhava? Pois é, os desenhos dele estavam muito melhores em comparação ao de antes, eu não tô falando de você pegar um personagem do google e tirar cópia, ele desenhava os OCs muito bons nível de artista de twitter tá ligado era muito daora. EJ começou a andar com uns amigos novos que também desenhavam, diferente da vez com o jojofag eu aceitei, e embora a gente não se encontrasse mais no recreio, a gente se via na aula e ele vivia mostrando os desenhos dele, naquela época ele era muito fã de Steven universo e ele vivia falando disso. Em uma dessas conversas, ele disse que queria criar um desenho sobre super heróis e dizia que o desenho dele iria "quebrar paradigmas" mas em umas semanas depois ele substitiu a ideia por outra de criaturas mitólogicas, ele vivia mostrando os personagens dele como elfos, sátiros e medusas, ele desenhava pra caralho. Eu uma outra conversa em específico eu disse a ele que ele era o meu melhor amigo, por que além de ser o único amigo bom que eu tive, ele me compreendia mais do que minha mãe e a reação dele foi um "obrigado". Ok, agora chega o sétimo ano, o EJ passava mais o tempo dele com os desenhistas do que comigo, mas ele ainda mostrava os desenhos dele então tava de boa, mas infelizmente escola iria fechar por causa de umas decisões do prefeito, foi chato e os últimos dias de aula foram muito conturbados. Eu disse pro EJ "Pô, a gente não pode perder o contato" e ele disse "Não, é só eu usar o número de whatsapp que tu me mandou há algumas semanas" mas o número que mandei pra ele foi um número antigo de um chip queimado, naquela época eu tava sem celular e o meu ia chegar bem depois. O penúltimo dia de aula foi somente a professora de educação física entregando as provas e só, entramos e saímos praticamente, mas como eu moro longe não foi prático por que tenho que esperar a moto, a minha mãe disse "Menino, melhor não ir sexta porque vai ser a mesma coisa" como filho eu aceitei mas ela estava muito enganada, sexta foi realmente o último dia de aula, com festinha e tudo, e eu faltei. Segunda eu fui pra escola, mas ela estava vazia e o professor de ciências disse que era apenas pros alunos de recuperação, voltei pra casa muito puto. A partir daí eu vivi minha vida, fui pra outra escola e demorei pra me adptar e digamos que a vida seguiu. Mas aí que tá, pode soar meio gay mas eu vivo sonhando com EJ, meus sonhos geralmente são muito sem pé nem cabeça mas os sonhos com ele são diferente por que eles fazem sentido, vão desde de nós subindo a arquibancada do ginásio ou eu recomendando um anime pra ele. Eu sinto falta dele, não faço a menor ideia de onde ele mora, as únicas informações que tenho dele é que ele assistia drawn mask, viu um vídeo do gemaplys e usava amino e instagram, eu podia achar ele de volta por essas redes socias mais a chance de ele usar outro nick é bem grande e tals. Quero muito ver como os desenhos dele estão hoje.
submitted by Nqsmn to desabafos [link] [comments]


2020.03.24 05:59 hebreubolado Crítica de "Mogli - O Menino Lobo" (2016) do John Favreau.

Os Livros da Selva é uma coletânea de contos do universo criado por Rudyard Kipling (1865–1936). Os dois Livros somam o total de quinze contos. Este filme adapta (ou ao menos tenta adaptar) de uma forma bastante recortada alguns contos que têm Mowgli como protagonista (importante ressalvar que não são todos os contos de Os Livros da Selva que têm o menino lobo como protagonista, alguns sequer se passam na Selva, ex: A Foca Branca, conto de número 4 na edição Clássicos da Zahar). Eu percebi inspirações no conto “Os irmãos de Mowgli”, o primeiro do universo do Kipling, “A Caçada de Kaa”, que narra o sequestro de Mowgli pelo Bandar-logo, o Povo Macaco, e “Como surgiu o Medo”, o conto mais mitológico em minha opinião, que narra o período de seca da Selva que os animais chamam de Trégua da Água. Em minha crítica, irei estabelecer algumas comparações do filme com a obra original do Kipling com objetivo de defender a opinião de que: enquanto um filme de animação, é um filme muito bem produzido, dirigido e criado, porém, enquanto adaptação cinematográfica de uma obra literária, deixou tanto a desejar, de tal forma que me faz acreditar que trata-se mais de uma adaptação da animação da própria Disney de 1967 do Wolfgang Reitherman do que uma adaptação da obra de Kipling, como veremos mais à frente. Para estabelecer essas comparações, utilizarei o meu exemplar de Os Livros da Selva: contos de Mowgli e outras histórias, da editora Zahar, publicado no ano de 2016, traduzido por Alexandre Barbosa de Souza.
Nota IMPORTANTÍSSIMA: compreendo e sou da opinião de que cinema e literatura são artes distintas e que possuem linguagens diferentes; também concordo que nenhuma adaptação é 100% fiel à obra literária, nem mesmo o tão renomado O Senhor dos Anéis; porém, quando usa-se o nome de um autor como fonte e principalmente sua obra como inspiração, é necessário o devido respeito à propriedade intelectual e criadora, não somente por questões jurídicas, mas por questões éticas. Sob esta premissa, vamos às comparações.
ATENÇÃO: Como trata-se de uma análise do filme, recomendo que a crítica seja lida somente por pessoas que já assistiram o filme. Se você também leu o livro e é um admirador da obra do Kipling e do que ela representa, será uma leitura ainda mais profunda.
O filme tem uma animação muito bonita; não entendo de cinema em termos técnicos, mas sem dúvidas trata-se de uma película bastante agradável de se assistir. Fora a animação de altíssima qualidade, as cores, personagens e músicas fazem do filme bastante agradável de se ver e rápido de assistir também. Incomoda-me em um filme que possui uma proposta infantil (a recomendação aqui no Brasil é para maiores de 10 anos de idade) hajam os famigerados Jump-scare. Imagine você sentado na sala assistindo com seu filho uma cena do Mowgli em um pasto verde e calmo e de repente BAM! Um tigre salta de trás da tela rugindo e fazendo um estardalhaço enorme. O recurso de jump-scare é, até mesmo em filmes adultos como no gênero de terror e suspense, considerado um recurso de baixa qualidade e previsível. Contei ao todo dois jump-scares no filme.
Em uma das primeiras cenas do filme vemos Mowgli, já na idade de menino (idade esta que permanece durante todo o filme. No último conto do Kipling, “A Corrida da Primavera”, ele já possui dezessete anos), assistindo uma assembléia dos lobos, que discutem se sua presença na alcateia deve ou não ser tolerada. Aqui já podemos perceber uma mudança drástica na história original: nos livros, Mowgli simplesmente aparece onde a alcateia Seonee vive, não levado por Bagheera como no filme retrata um pouco mais a frente. Akela e o lobo que criou Mowgli são dois lobos diferentes, não o mesmo: este último aparece nos contos com o nome de Pai Lobo apenas. Akela em hindi significa solteiro, solitário, o que não faz sentido colocá-lo como pai de Mowgli e dono de uma família. A intimidação do tigre Shere Khan provoca aos lobos foge do nosso autor britânico da mesma forma: enquanto que no filme o tigre não apenas mata Akela com um único golpe mas domina toda o bando, nos livros ele é intimidado pelos caninos.
“[…] Shere Khan talvez tivesse enfrentado Pai Lobo, mas não desafiaria Mãe Loba, pois sabia que, ali onde estava, ela tinha a vantagem do terreno e lutaria até a morte. Por isso voltou atrás, rosnando ao deixar a boca da caverna […]” (KIPLING, p. 33).
Bagheera e Shere Khan travam uma batalha durante a escolta de Mowgli em retorno para a vila dos homens; nos livros, essa luta nunca aconteceu.
Ao encontrar com os elefantes, a pantera negra pede para que Mowgli se ajoelhe e o informa da importância desses terríveis elefantídeos na criação e manutenção da Selva. Esse aspecto deve ser parabenizado por ter sido incorporado no filme: Kipling retratou os elefantes como a força criadora da Selva, e sendo Hathi, O Silencioso, o mais antigo deles. Embora a curtíssima cena tenha deixado implícito a importância dos elefantes, senti falta do personagem de Hathi, que é de suma importância em todos os contos que ocorrem na Selva.
“[…] Quando Hathi, o elefante selvagem, que vive cem anos ou mais, viu uma longa e esguia faixa de rocha seca bem no meio do rio, entendeu que estava olhando para a Pedra da Paz e, na mesma hora, ergueu sua tromba e proclamou a Trégua da Água, como seu pai antes dele havia proclamado cinquenta anos atrás.” (KIPLING, p. 185).
“[…] Shere Khan foi embora sem ousar rosnar, pois sabia, assim como todo mundo, que, no final das contas, Hathi é o Senhor da Selva” (KIPLING, p. 191)”.
O antagonismo inexistente de Kaa: a temível Píton é apresentada no filme como uma vilã que, após revelar a história de Mowgli para ele, tenta devorá-lo. Este personagem também foi desconstruído e teve sua personalidade alterada, assim como vários outros, que comentarei mais à frente. Nos livros, a píton é vista como um animal sábio e astuto, mas que respeita Mowgli como o Senhor da Selva que ele se tornou. A primeira vez que ele é mencionado na obra é no conto “A Caçada de Kaa”, aquele citado mais acima, que retrata o sequestro de Mowgli. Percebendo sua incapacidade de perseguir o Bandar-Log, o Povo Macaco, Baloo e Bagheera decidem pedir ajuda à píton em troca de alguns cabritos. Após relembrar Kaa de que o Bandar-log costumava chamá-lo de perneta, minhoca amarela, a pantera e o urso acabam convencendo a píton a se unir à eles na caçada aos macacos para resgatar Mowgli. O antagonismo de Kaa no filme pode ter várias explicações (que infelizmente só nos seriam acessível diretamente pelo diretor ou roteirista), porém, me parece que colocar uma cobra como vilã é um reforço de um esteriótipo medíocre. A cobra malvada. Não, sr. Favreau, isto não existe no universo de Kipling. Muito embora astuto e um caçador destemível, Kaa não apenas ajuda nesse conto em específico como também em “Cão Vermelho”, quando auxilia Mowgli na batalha contra dos lobos contra os cães vermelhos, chamados de dholes (inclusive, é nesse conto que Akela morre devido à feridas causadas na batalha contra os dholes, diferentemente da sua morte estúpida no filme com uma só mordida de Shere Khan, o que nos demonstra uma ideia bastante frágil de um lobo alfa que deveria estar a frente de sua alcateia e portanto, se o mais forte entre todos os lobos. Akela morre com pelos brancos como neve, ressaltando sua idade avançadíssima). Neste conto, Kaa fornece a Mowgli ideias de como combater e sair em vantagem contra os dholes, além de protegê-lo no rio durante o seu percurso e ser também ativo no plano de Mowgli para emboscar os dholes na toca das abelhas, etc etc.
Nem é preciso informar que não, Baloo não salvou Mowgli de ser comido por Kaa em Os Livros da Selva. Ainda no primeiro conto, “Os irmãos de Mowgli”, o Conselho da Alcateia está decidindo o destino do filhote de homem. A Lei da Selva, código de ética e moral que rege a todos os povos livres com exceção do Bandar-log, intercede a favor de Mowgli:
“Pois bem, a Lei da Selva dispõe que, em caso de disputa do direito sobre um filhote a ser aceito pela alcateia, pelo menos dois membros, além do pai e da mãe, devem interceder ao seu favor.” (KIPLING, p. 35). Adivinhe quem fala por Mowgli além dos seus pais lobos? Isso mesmo. O velho Baloo, encarregado de ensinar a Lei da Selva para os filhotes, fala em nome do menino. Sendo assim, falta apenas mais um voto. Baloo era o único fora da alcateia que tinha direito de falar no Conselho; sendo assim, restava convencer um lobo entre a alcateia para que Mowgli fosse aceito.
Porém, não foi isso que aconteceu: Bagheera intercede e, não podendo votar por não ser parte da Alcateia Seonee, argumenta em cima da Lei da Selva:
“ — Ó Akela, ó Povo Livre — ronronou -, não tenho voto na assembléia de vocês, mas a Lei da Selva diz que, não se tratando de um caso de morte, se existe uma dúvida quanto a um novo filhote, a vida dele pode ser comprada por um certo preço. E a lei não diz nada sobre quem pode ou não pagar esse preço. Estou certo?
[…] — Agora, além do voto de Baloo, acrescento um touro, e um bem gordo, que acabei de matar a menos de um quilômetro daqui, para que o filhote de homem seja aceito de acordo com a lei. Seria possível?” (KIPLING, p. 35–36). Oferta esta que o Povo Livre aceitou prontamente. Concluímos, portanto, que Baloo não apenas conheceu Mowgli desde sua chegada na Alcateia Seonee, mas foi o responsável, junto com Bagheera, por sua aceitação na alcateia. Esta alteração no roteiro do filme pode ser explicada pelo fato de que a linguagem do cinema requer algo mais dinâmico e rápido que os detalhes da literatura. Foi a forma do Favreau contar como Mowgli chegou na Selva e introduzir Baloo no filme, dois coelhos em uma cajadada só, como dizem por aí.
“E foi assim que Mowgli entrou para a Alcateia dos Lobos de Seeonee, ai preço de um touro e graças às palavras favoráveis de Baloo.” (KIPLING, p. 37) A ausência nos filmes desse aspecto da história faz com que a obra tenha um déficit e deixe de retratar uma parte bastante importante nos contos de Kipling: as reflexões filosóficas por trás do conto, tais como: o valor de uma vida entre os lobos, o conceito de moralidade (certo e errado), o valor de um homem, a questão da Lei da Selva sendo usada na prática (o que no filme não passa de uns versos engraçados que são recitados em uma decoreba), etc.
A mudança da personalidade de Baloo no filme é o que mais me irrita nessa adaptação: nos contos de Kipling, Baloo é o professor da lei da selva, como citei mais acima, e no filme, quando ele pergunta a Mowgli se os lobos cantam, o menino responde negativamente e recita para ele a Lei da Selva (dialogo que acontece no minuto 40 do filme, aproximadamente) , Baloo responde “Aí, isso não é uma canção. É um monte de regra!” FAVREAU, AMADO??
Transformar o professor da Lei em um urso trapalhão reforça o fato de o filme ser uma adaptação do filme da Disney, como citei mais acima, e acabou empobrecendo o roteiro no que diz respeito aos conceitos profundíssimos que Kipling introduz através de Baloo, desde a importância da sociedade e união (no conto “A Caçada de Kaa”), as lições que acompanharam a educação do garoto desde que ele tinha entre onze e quinze anos e até mesmo os detalhes da própria Lei da Selva, que no filme os lobos simplesmente recitam aos quatro ventos, e nos contos é aprendida desde filhotinhos pela boca do próprio Baloo.
No conto “Tigre! Tigre!”, após Mowgli decidir sair da alcateia e ir para a vila dos homens, realmente Shere Khan influencia os filhotes e habita a Pedra do Conselho, como mostrado no filme, mas esse reinado sobre os lobos dura apenas algumas páginas, ao passo de que quando Mowgli retorna para a Selva (a sua estadia na vila dos homens também foi omitida no filme), acaba dando um jeito no tigre, mas isso trataremos mais a frente.
A cena de Mowgli salvando o filhote de elefante também não existe nos contos. Também me incomoda a incapacidade de falar dos elefantes, visto que todo bicho na selva, na obra de Kipling, tem essa capacidade. Os elefantes são inteligentes como todos os outros e seu líder, Hathi, como já dito mais acima, não apenas era o mais inteligente de todos, mas o verdadeiro Senhor da Selva e criador da própria.
As engenhocas de Mowgli realmente são importantes nos contos, como no filme mostra, mas a motivação do sequestro não foi a Flor Vermelha, tão desejada pelo Rei Louie. Essa cena é tão distante da obra e das intenções do Kipling que merece, mais que todas as outras, ser tratada com mais detalhes:
Primeiro, O REI LOUIE NÃO EXISTE! Uma das características mais importantes do Bandar-log é sua incapacidade de ser organizados socialmente, por isso não têm líder. No filme, criar um personagem e colocá-lo no cargo de líder do Bandar-log acaba desconfigurando o mesmo e também o desconstruindo, o que aconteceu aconteceu com vários personagens, como vimos acima.
“- Escute, filho de homem — rugiu o urso, e sua voz ressoou como o trovão numa noite quente. — Ensinei a você a Lei da Selva inteira, que vale para todos os Povos da Selva, menos para o Povo Macaco que vive nas árvores. Eles não têm lei. São marginais. Não têm fala própria, mas usam palavras roubadas que ouvem por aí enquanto espiam e esperam no alto dos galhos. Os costumes deles são diferentes dos nossos. Eles não têm líder. Não têm lembranças. São bravateiros, fofoqueiros e fingem ser os maiorais e estar sempre prestes a desempenhar grandes feitos na selva, mas é só uma noz cair no chão que desatam a rir e se esquecem de tudo. Nós da selva não queremos nada com eles. Não bebemos onde os macacos bebem, não vamos aonde os macacos vão, não caçamos onde eles caçam, não morremos onde eles morrem. Alguma vez você me ouvir falar do Bandar-log até hoje?
- Não — respondeu Mowgli num sussurro, pois a floresta ficou muito quieta quando Baloo terminou.
- O Povo da Selva os mantém longe das bocas e das cabeças. Eles são muitos, maus, sujos, despudorados e desejam, se é que se concentram em algum desejo, ter a atenção do Povo da Selva. Mas nós não prestamos atenção neles nem quando atiram nozes e porcarias em nossas cabeças.” (KIPLING, p. 54). Segundo: a motivação do Bandar-log em sequestrar Mowgli não era para ter a flor vermelha, isto é, o fogo, e se espalhar pela floresta, mas sim simplesmente ter a atenção do Povo da Selva e usar as engenhocas de Mowgli ao seu favor. Nesse trecho que se segue, vemos mais uma vez a incapacidade de terem um líder, por isso a impossibilidade de existir um Rei Louie, dentre outros defeitos bastante característicos do povo macaco:
“ […] Eles viviam no topo das árvores, e, como os bichos raramente olham para cima, os macacos e o Povo da Selva nunca se encontravam. […] Estavam sempre a um passo de ter um líder, suas próprias leis e seus costumes, mas nunca chegavam a fazê-lo, pois sua memória não durava de um dia para o outro […]. Nenhum dos bichos conseguia alcançá-los, mas, em compensação, nenhum dos bichos lhes dava atenção, e foi por isso que ficaram tão contentes quando Mowgli foi brincar com eles e ouviram como Baloo tinha ficado bravo.
Nunca aspiraram realizar coisa alguma — no fundo, o Bandar-log nunca aspira a nada -, mas um deles teve o que lhe pareceu uma ideia brilhante e contou os outros que Mowgli seria muito útil para a tribo, porque sabia amarrar gravetos para protegê-los do vento; então, se o capturassem, poderiam obrigá-lo a lhes ensinar como fazê-lo” (KIPLING, p. 55). O conto “A Caçada de Kaa” inicia-se com Baloo repassando algumas lições para Mowgli até perceber que ele esteve com o Povo Macaco. Durante um sermão (o diálogo citado acima que começa com “escute, filhote de homem”), Mowgli é sequestrado pelos macacos, Baloo e Bagheera tentam correr atrás dele, mas acabam pedindo ajuda a Kaa, como citado mais acima. A mudança na personalidade do Bandar-log, a criação de Rei Louie e a mudança no roteiro original da história no que toca à motivação do sequestro dos macacos é o pico do distanciamento entre o filme e sua obra inspiradora. No entanto, gostaria de confessar aqui que o Rei Louie era o meu personagem favorito na animação de 1967 e a musiquinha dele é realmente contagiante, haha! A motivação para manter o Rei Louie nessa versão do filme me parece mais uma demonstração de que trata-se de uma adaptação do filme da disney de 1967, e não da obra do Rudyard Kipling. A minha crítica em relação a permanência do Rei Louie é justamente por se tratar de uma das características do Bandar-log a falta de líder. No prefácio desta edição de Os Livros da Selva que tenho em mãos, o tradutor relata o simbolismo profundo por trás do Bandar-log, o que no filme ficou ofuscado, escondido e, ouso dizer, inexistente: “ Nessa estrutura social, há o nível mais baixo de todos. Nele estão justamente os parentes mais próximos dos humanos, considerados incapazes de aprimorar a organização interna de sua sociedade. Com evidente ironia, Kipling identifica o Povo Macaco com a antítese de um real esforço de construção do bem-estar coletivo. […]” (Apresentação, p. 10) o parágrafo segue-se citando o sermão de Baloo, também citado por mim acima várias vezes, aquele mesmo que começa com “escute, filhote de homem”, onde Baloo explicita com todas as letras. A cena terrível de Baloo praticando psicologia reversa em Mowgli para que ele pense que não é amado e parta para a vila dos homens de uma vez por todas é de revirar o estômago para todo leitor de Kipling. Baloo tem uma relação não apenas de amizade com Mowgli, mas também de respeito mútuo e servidão, visto que nos últimos contos Mowgli é visto como o Senhor da Selva por todos os animais, até mesmo o próprio Hathi, o mais antigo deles. Nos contos, Mowgli decide para a vila dos homens após perceber que não era mais bem-vindo na alcaeteia seeonee (isto porque Shere Khan influenciava os lobos menores e os atiçava contra Mowgli e, tendo seus pais morrido, somente Akela estava alí para interceder por ele, e sendo já um lobo idoso, não tinha muita voz contra os muitos lobos jovens fantoches do tigre), retornando apenas para dar um jeito no Shere Khan, que estava dominando a alcateia (eu vou chegar lá, calma!), e esta parte da obra também contém um simbolismo bastante profundo, mostrando a dualidade do homem entre seus instintos animais e sua civilidade que, de certa forma, acaba castrando estes mesmos instintos. Podemos interpretar de várias formas os dos “Mowglis” que aparecem nos contos de Kipling, como a dualidade presente no homem de sua razão e suas emoções, representados pelo Mowgli na Selva, sobrevivendo através de seus instintos, e o Mowgli na vila dos homens, submetido à fala dos homens, vivendo como homens nas regalias da tecnologia (não ipods ou tablets, e sim uma simples cama e uma cabana. Lembremos que tecnologia vem do grego techne, que significa arte, e logos, que significa ciência. O conceito significa, entre outros, técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular e/ou técnica ou conjunto de técnicas de um domínio particular). Toda essa reflexão acerca da dualidade do homem, dos dois mundos — a Selva e a vila dos homens -, tudo isso é omitido nos filmes. A cena de Mowgli na vila dos homens tem uma duração de menos de 30 segundos. O filme força mais uma batalha inexistente: desta vez, Baloo contra Shere Khan. Mais uma vez, essa luta não existe nos contos. Sendo Baloo um urso velho e gordo, muito embora seja o mestre da lei, não possui a competência de lutar com um tigre. Ele não caça, pois se alimenta de mel e plantas. A única cena de luta que existe na obra de Kipling envolvendo o urso se encontra no conto “A Caçada de Kaa”, quando ele ajuda a cobra e a pantera a lutar contra as centenas de milhares de macacos. À propósito, esta cena também foi omitida nos filmes, o que daria uma batalha épica, e substituída por uma cena estúpida onde Baloo bajula o inexistente Rei Louie para distrair os macacos. Mowgli prepara uma tocaia, já no fim do filme, utilizando suas engenhocas e a famosa flor vermelha para matar Shere Khan. Favreau, passou bem longe de novo! No conto “Tigre! Tigre!”, quando Mowgli se encontra na vila dos homens trabalhando como pastor de búfalos, ele usa destes búfalos para encurralar Shere Khan em um defiladeiro utilizando da ajuda do velho Akela e os lobos seus irmãos para tocar o búfalo contra Shere Khan. O tigre, que havia acabado de se alimentar e por isso estava preguiçoso e preferia não lutar, acabou caindo no desfiladeiro ou morrendo pisoteado (Kipling deixa a forma de morte de Shere Khan na ambiguidade). Outro detalhe que foi omitido nos filmes e possui um simbolismo profundo foi o fato de Mowgli ter retirado a pele do tigre e posta na Pedra do Conselho, onde o lobo alfa da alcateia se posta durante os Conselhos, o mesmo lugar onde Shere Khan estava quando dominava a alcateia na ausência de Mowgli. Podemos refletir bastante sobre o que isso pode significar, levando em conta que Shere Khan é a retratação do Mal na obra de Kipling. A representação de Shere Khan foi um dos dois personagens que, na minha opinião, mais se assemelharam aos originais. Mowgli dos livros é um garoto divertido, engenhoso, e ao mesmo tempo brincalhão e bastante curioso. Devido a sua educação, cresceu mais que as crianças da cidade e de uma forma mais forte e saudável. No filme, ele não passa de uma criança entre lobos; insegura, cabisbaixa e bastante incoveniente; não vemos nenhum relato explícito do humor de Mowgli, humor este que chega ao nível de fazer piadas com Kaa e o próprio Hathi, o Senhor da Selva. A mãe-loba de Mowgli teve uma boa representação, porém, senti falta do simbolismo do seu nome, Raksha, que em sânscrito significa “pedir proteção” e, ao mesmo tempo, no budismo trata-se de um demônio, que podemos interpretar como o instinto de proteção da mãe, inato e instintivo, presente em todas as espécies, e ao mesmo tempo, na sua qualidade implacável, forte e até mesmo cruel quando se trata de proteger seus filhos. O simbolismo da mãe loba foi omitido no filme, fazendo dela apenas mais uma personagem. Shere Khan é um tigre manco, e por isso somente mata gados (KIPLING, p. 29), característica essencial para a construção do personagem e também foi omitida no filme. Shere singifica tigre e khan significa chefe no idioma hindu e persa.
No mais, gostaria de reinterar, mais uma vez pois nunca é demais, que concordo com a opinião de que o cinema e literatura são linguagens diferentes e que devem ser respeitadas como o tal, mas, novamente, a partir de um momento que um filme possui a intenção e premissa de ser uma adptação cinematográfica, há coisas que devem ser levadas em conta somente por uma questão de ética e respeito para com a obra do autor. Novamente, deixo meus elogios à direção de arte do filme e qualidade de animação, mas no que toca ao roteiro e à adaptação, eu colocaria esse filme no topo da lista de frustrações, ao lado de Percy Jackson e o Ladrão de Raios. É um filme excelente para assistir com a família e as crianças certamente vão adorar. Lembrem-se, como diria Platão, uma vida sem criticas não vale á pena ser vivida. Forte abraço à todos.
Wallace Guilhereme. Contato: [[email protected]](mailto:[email protected])
submitted by hebreubolado to brasilivre [link] [comments]


2020.03.20 06:16 zeoranger Minhas irmãs não estão levando a sério!

Eu estou morando com meus pais enquanto meu ape fica pronto no meio do ano. Estamos de quarentena, estou de home office e meu pai tbm, ele inclusive é de grupo de risco, mas de 60, diabético, não tem um rim.
Minhas irmãs são autônomas, então não querem parar de trabalhar se não ficam sem dinheiro.
So que elas estão seguindo a rotina diária delas. Uma é personal e a outra logista. Ambas tem contato diário com um número grande de pessoas fora do meu círculo. Estão se expondo.
E o pior, elas deixam os filhos aqui todo dia pra minha mãe cuidar. Ou seja contaminação correndo solta.
Tão me chamando de hipocondríaco, mas eu sinto que sou o único levando a sério aqui em casa. E isso tá me irritando.
submitted by zeoranger to desabafos [link] [comments]


2020.01.04 03:14 altovaliriano O Leão na teia da Aranha

Texto original: https://warsandpoliticsoficeandfire.wordpress.com/2016/02/05/heirs-in-the-shadows-the-young-lion/
Autores: GoodQueenAly; @BryndenBFish
Título original: Heirs in the Shadows - The Young Lion

Introdução

Tyrek Lannister pode ser considerado pelos leitores pouco mais que um personagem terciário em As Crônicas de Gelo e Fogo. A avaliação não é irracional: nem mesmo mencionado pelo nome no primeiro livro, aparecendo apenas duas vezes antes de seu misterioso desaparecimento na revolta violenta em Porto Real em A Fúria dos Reis , o jovem Tyrek merece pouco mais do que uma nota de rodapé entre seus parentes Lannister mais proeminentes, muito menos no grande elenco de personagens. Caso notado, ele pode ser lembrado apenas como uma vítima, no mesmo plano que seu primo Willem: um infeliz peão das ambições dinásticas de Lannister, um inocente assassinado pelo povo revoltado da capital.
No entanto, Tyrek desapareceu tão completamente - e tão misteriosamente - que, afinal, seu "simples" desaparecimento pode não ser tão simples. Em vez de ser um dos muitos corpos retirados das ruas nos dias e semanas após o tumulto, Tyrek pode estar vivo e bem (ou pelo menos relativamente bem). Ainda mais, Tyrek pode estar esperando para fazer um reaparecimento dramático em Westeros, enquanto é instruído e preparado por um improvável "aliado". Quem iria querer o jovem primo Lannister e o que poderia estar reservado para ele no futuro?
[...]

Apresentando o Peão

Tyrek Lannister nasceu por volta de 286 dC, o único filho de Sor Tygett Lannister e sua esposa Darlessa Marbrand. Sor Tygett era o terceiro filho de Lorde Tytos Lannister, um irmão mais novo do futuro Lorde Tywin e Sor Kevan. Como os dois irmãos mais velhos de Tygett se casaram e tiveram filhos antes do nascimento de Tyrek, não houve grande pressão sobre esse terceiro filho para se casar e procriar também (embora ainda não saibamos quando Tygett e Darlessa se casaram).
Em uma família mais pobre, Tygett poderia ter sido levado para a Muralha, a Fé ou a Cidadela para reduzir os estoques familiares, mas os Lannisters eram ricos o suficiente para sustentar as famílias dos filhos mais novos. Tygett também não teve que abaixar os olhos para encontrar sua noiva: Darlessa era uma Marbrand, uma casa vassala respeitável dos Lannisters (e parente da mãe de Tygett, Jeyne Marbrand).
Na época em que o bebê Tyrek nasceu, ele era possivelmente o nono na fila de Casterly Rock (dependendo se seus primos Martyn e Willem Lannister e Joffrey Baratheon já haviam nascido e se o pai de Tyrek já havia morrido). Ainda que outros pretendentes tenham enfrentado probabilidades menores (Aegon V pode ter sido o décimo primeiro na fila no momento de seu nascimento), a possibilidade de um recém nascido sentar-se no assento dos Reis do Rochedo parecia muito improvável.
Ainda assim, o jovem Tyrek não teve nenhuma sorte. Como Lannister (e especialmente Lannister do Rochedo), neto da linha masculina de Lorde Tytos, Tyrek nunca teria falta de dinheiro ou influência. De fato, sendo a rainha uma Lannister (e havendo um herdeiro “meio”-Lannister da idade de Tyrek), carregar o nome de "Lannister" faria com que até um membro da família de status relativamente baixo como Tyrek ganhasse importância.
Seu pai, Tygett, recebeu alguns elogios durante a Guerra dos Reis Ninepenny: embora muito jovem - possivelmente até mais jovem do que Tyrek quando desapareceu - Tygett matou um homem em sua primeira batalha e depois matou um cavaleiro da Companhia Dourada. Portanto, Tyrek descendia de uma safra de boa qualidade das Terras Ocidentais e, pelo menos, poderia ter esperado se casar com uma donzela nascida nas Terras Ocidentais quando tivesse mais idade.
A rainha Cersei, no entanto, tentaria elevar seu jovem primo Lannister ainda mais do que ele poderia ter imaginado:
Não conseguiu deixar de reparar nos dois escudeiros: rapazes bonitos, loiros e bem constituídos. Um tinha a idade de Sansa, com longos cachos dourados; o outro teria talvez uns quinze anos, cabelos cor de areia, um fio de bigode e os olhos verdeesmeralda da rainha.
– Aqueles rapazes – Ned lhe perguntou– são Lannister?
Robert assentiu, limpando as lágrimas dos olhos.
– Primos. Filhos do irmão de Lorde Tywin. Um dos mortos. Ou talvez o vivo, agora que penso nisso. Não me lembro. Minha esposa vem de uma família muito grande, Ned.
Uma família muito ambiciosa, Ned pensou. (AGOT, Eddard VII)
Ned foi perspicaz em sua conclusão: a rainha Lannister teve bastante iniciativa no aprofundamento das relações dos Lannister na corte (uma característica que mais tarde ela criticaria na noiva de seus filhos, Margaery Tyrell). Consequentemente, Cersei convenceu o rei Robert a nomear o jovem Tyrek seu escudeiro, junto com o primo de ambos, Lancel (o filho mais velho de Kevan Lannister).
Não se sabe quando Tyrek começou a servir o rei, embora provavelmente não tenha sido mais de alguns anos (se muito) antes do início de A Guerra dos Tronos. Para efeito de comparação, os dois Walders em Winterfell começaram a servir Ramsay Bolton por volta dos oito ou nove e Edric Dayne a Beric Dondarrion aos dez. Assim, Tyrek deveria estar com Robert há cerca de três anos antes da morte do rei, no máximo.
Quanto mais alto o cavaleiro ou senhor, maior seria a honra de ser escudeiro (a razão pela qual, entre outras concessões, Walder Frey exigiu que seu filho Olyvar se tornasse escudeiro do então Lorde Robb Stark), e nenhuma honra maior poderia ser concedida a um menino Westerosi que ser escudeiro do próprio rei.
A nomeação como escudeiro do rei poderia ser o começo de uma carreira na corte para Tyrek, semelhante ao começo cortês do tio Tywin como um pagem para Aegon V. O príncipe Rhaegar, afinal, transformou seus escudeiros, Myles Mooton e Richard Lonmouth, em firmes aliados e amigos. Se Tyrek provasse ser um espadachim tão talentoso quanto seu pai, poderia se tornar o mestre de armas da Fortaleza Vermelha (uma posição que Tywin realmente tentou, mas falhou, em garantir para Tygett). Com um primo na Guarda Real, uma capa branca poderia até estar no futuro de Tyrek (de fato, uma colocação na Guarda Real poderia ter servido para remover cuidadosamente um excesso de Lannisters do Rochedo). Dyanne Dayne pode ter assegurado um casamento real devido à sua nomeação para a corte da rainha Mariah Martell. Um noivado com a princesa Myrcella provavelmente era impossível para um mero primo Lannister, mas na corte Tyrek não careceria de conexões poderosas - enquanto os Lannister permanecerem no poder.
No entanto, também pode ter havido um lado mais sombrio em Tyrek ter se tornado escurdeiro - um não explorado nos livros, mas que, no entanto, é importante considerar à luz do possível papel de Tyrek no futuro. Espera-se que escudeiros sigam seus cavaleiros em todos os lugares, e o exemplo de Justin Massey demonstra que Robert poderia levar seus escudeiros a lugares estranhos:
Massey quer a princesa selvagem também. Ele certa vez serviu meu irmão Robert como escudeiro e adquiriu o seu apetite por carne feminina. (ADWD, Jon IV)
Esse "apetite por carne feminina" quase certamente incluía os bordéis de Porto Real que Robert visitava com alguma frequência. Tyrek era um pouco jovem demais para participar da maneira que Stannis disse que Justin Massey fazia (ou mesmo da maneira que Lancel poderia ter feito, se incentivado por Robert), mas ele não teria que passar tempo com nenhuma prostituta para observar algo muito mais perigoso que os adúlterios do rei.
Os leitores sabem que Robert tinha pelo menos um bastardo de uma prostituta de Porto Real: a bebê Barra, nascido de uma jovem prostituta de Chataya. A bebê, como todos os bastardos conhecidos de Robert, tinha o cabelo preto de seus antecedentes Baratheon - um fato que Mindinho não deixou de notar, o fez levar Eddard para ver a bebê e revelar a conspiração incestuosa dos Lannister.
Certamente, seria demais supor que Tyrek, um garoto de 12 anos, tivesse descoberto que os verdadeiros filhos bastardos de Robert tinham aparência de Baratheon, e que seus primos em primeiro grau eram, na verdade, bastardos nascidos do incesto de Lannisters. No entanto, Tyrek talvez tenha visto demais, mesmo que ele próprio não tivesse juntado as peças do quebra-cabeça. O escudeiro mais jovem do rei provavelmente viu em primeira mão os filhos bastardos de cabelos pretos do rei (com nove bastardos não registrados do rei, parece provável que pelo menos um outro além de Barra e Gendry tenha nascido onde o rei passava a maior parte do tempo: a capital) e, presumivelmente, era amigo de confiança e companheiro dos filhos de aparência Lannister da rainha. Se esse conhecimento fosse posto a disposição de um indivíduo mais ardiloso do que o inocente Tyrek, o garoto poderia se tornar uma testemunha útil na derrubada do regime de Baratheon-Lannister.
No entanto, Tyrek não precisaria servir Robert como escudeiro (ou segui-lo em suas aventuras lascivas) por muito tempo. Em 298 dC, Robert morreu – aparentemente de um acidente de caça, mas de fato por um meio-assassinato criado por Cersei para impedir a descoberta de seu incesto. O veículo que ela usou foi o primo de Tyrek e também escudeiro, Lancel Lannister.
Aparentemente, Tyrek não acompanhou o rei em sua última caçada, mas ele pode ter ouvido trechos da trama via Lancel. Seu status duplamente íntimo - como primo em primeiro grau e companheiro escudeiro (os dois parecem ter sido os únicos escudeiros de Robert no momento de sua morte) - dão a Tyrek maior potencial de conhecer os fatos por trás do assassinato de Robert - fatos que também serviriam para derrubar Linha real de Cersei.
Naquele momento, Tyrek era simplesmente um antigo escudeiro real, então alocado na corte de Joffrey sem qualquer objetivo maior. Os eventos, no entanto, logo perturbariam a existência relativamente pacífica de Tyrek e o empurrariam para uma tempestade de caos político - e ambição secreta.

Um Desaparecimento Estranho

Para acrescentar a todo o mistério que cerca seu desaparecimento, em A Fúria dos Reis, Tyrek é visto apenas uma vez:
Lorde Gyles tossia, enquanto o pobre primo Tyrek vestia sua capa de noivo de pele de esquilo e veludo. Desde seu casamento com a pequena Senhora Ermesande, três dias antes, os outros escudeiros tinham começado a chamá-lo de “Ama de Leite”, perguntando-lhe que tipo de cueiros sua noiva usara na noite de núpcias. (ACOK, Tyrion VI)
Longe de ser a noiva filha de um glamuroso cortesão que Tyrek esperava que sua posição de corte lhe desse - ou mesmo da donzela das Terras Ocidentais que ele poderia ter antecipado em circunstâncias normais - o "primo pobre" de Tyrion fora casado com Ermesande Hayford. Dinasticamente, a combinação foi agradável: a Casa Hayford era uma respeitável dinastia das Terras da Coroa, com pelo menos uma casa de cavaleiros juramentada. Sua atual dama, Ermesande, era a última de sua linhagem, o que significa que as terras e rendas de Hayford seriam graciosamente transferidas para os Lannisters.
Infelizmente para Tyrek, Ermesande também era um bebê. O novo lorde de Hayford teria que esperar até os vinte e poucos anos para contemplar a consumação de seu casamento. No entanto, se era pessoalmente humilhante ser casado com uma garota ainda não desmamada, Tyrek não tinha instância para reclamar. Ele, como todos os seus contatos Lannister, era um peão em um grande jogo de política dinástica e se casaria na forma que pudesse trazer maior vantagem à Casa Lannister.
Tyrek, no entanto, não viu sua noiva infantil amadurecer. Em 299 dC, Tyrion arranjou o casamento da prima de Tyrek, Myrcella, com o príncipe Trystane Martell, de Dorne. A corte fez um evento para acompanhar Myrcella até as docas para vê-la partir para Lançassolar, e Tyrek - como primo da princesa e também representante dos interesses de Lannister - juntou-se à família real, cortesãos, guardas reais e até o Alto Septão na procissão. Um homem na corte, no entanto, estava visivelmente ausente: o mestre dos sussurros, Varys.
A cidade estava em um clima nefasto. A Guerra dos Cinco Reis havia isolado a Capital dos tradicionais celeiros de Westeros. Com as Terras Fluviais em chamas e a Campinas firmemente apoiando de Renly Baratheon no ínico, Porto Real teve que confiar em Rosby e Stokeworth para trazer suprimentos, e as restrições resultaram em fome entre as classes mais pobres da cidade. O que o jovem rei Joffrey não possuía em charme e tato político, mais do que compensava em crueldade. Tyrion, sua Mão, foi responsabilizado pela má sorte após a morte de Robert, odiado por sua retaliação contra Janos Slynt e Pycelle e por seus seguidores mercenários e selvagens. Rumores sobre o incesto dos Lannister e a corrupção real em geral já haviam se espalhado pelas ruas; o ar saturado precisava apenas da faísca certa para explodir.
Quando explodiu, a fúria foi horrível de se ver. Sor Aron Santagar, o mestre de armas da Fortaleza Vermelha, foi espancado até a morte por quatro homens, enquanto Sor Preston Greenfield, da Guarda Real, foi retalhado e esfaqueado tão brutalmente que sua armadura branca ficou manchada de vermelho e marrom. O Alto Septão fora arrancado de sua liteira e despedaçado por membros da multidão, e a Senhora Lollys Stokeworth fora estuprada nas ruas por vários homens. Nove Mantos Dourado foram mortos pela multidão, enquanto mais 40 da Patrulha da Cidade foram feridos nos combates; o número de plebeus mortos não foi registrado, mas provavelmente foi muito maior.
Não foi registrado entre os mortos, porém, o jovem Tyrek Lannister. Presumivelmente, "Ama de Leite" estava na "longa comitiva de outros cortesãos" atrás da liteira do Alto Septão, formada no final da procissão real. Esse posicionamento explicaria por que foi Horas Redwyne, também naquele grupo, quem informou que Tyrek não havia retornado. Tyrion, assumindo o comando logo após o tumulto, ordenou a Jacelyn Bywater, seu novo Comandante da Patrulha da Cidade, que encontrasse seu primo desaparecido:
Tyrek continuava desaparecido, tal como a coroa de cristais do Alto Septão. Nove homens de manto dourado tinham sido mortos, e havia quarenta feridos. Ninguém se incomodara em contar quantos haviam morrido entre a multidão.
– Quero Tyrek, vivo ou morto – Tyrion disse secamente quando Bywater se calou. – Ele não passa de um garoto. Filho do meu falecido tio Tygett. O pai sempre foi bom para mim. (ACOK, Tyrion IX)
Com a confusão e o caos do tumulto, não surpreende que Tyrek Lannister tenha se perdido. Sua aparência óbvia de Lannister e sua associação com a família real pode ter tornado Tyrek um alvo fácil para os manifestantes. Se ele fosse tratado com tanta brutalidade quanto Sor Preston ou Sor Aron, seu corpo poderia nunca ter sido encontrado entre os muitos mortos.
No entanto, o que é insatisfatório nessa explicação simples é o foco que o desaparecimento de Tyrek é dado por vários livros, muito depois que os incêndios na Baixada das Pulgas foram extintos. Em três momentos distintos, Tyrek e o mistério de seu desaparecimento após o tumulto são expressamente mencionados, muito embora nenhum personagens presentes pareça ser capaz de determinar o destino do pobre escudeiro.
O primeiro momento ocorre durante A Tormenta de Espadas. Tyrion, tentando uma reunião com seu pai (a nova Mão), encontra Sor Addam Marbrand na escada. Um cavaleiro bastante talentoso e amigo de infância de Jaime Lannister, Addam havia sido nomeado o novo comandante da Patrulha da Cidade, mas sua primeira tarefa provou ser um fracasso:
– Você vem dos aposentos de meu pai? – perguntou.
– Venho. Temo não tê-lo deixado no melhor dos humores. Lorde Tywin acha que quatro mil e quatrocentos guardas são mais do que suficientes para encontrar um escudeiro perdido, mas seu primo Tyrek continua desaparecido.
Tyrek era filho do falecido tio Tygett, um rapaz de treze anos. Desaparecera no tumulto, não muito tempo depois de se casar com a Senhora Ermesande, um bebê de peito que calhava ser a última herdeira sobrevivente da Casa Hayford. E provavelmente a primeira noiva na história dos Sete Reinos a enviuvar antes de ser desmamada.
– Também não fui capaz de encontrá-lo – confessou Tyrion. (ASOS, Tyrion I)
Pode ou não ser verdade que Sor Addam enviou todos os quatro mil guardas da cidade à procura do jovem Tyrek, mas o tamanho de sua força-tarefa em potencial só fez com que o fracasso em encontrar essa relação Lannister fosse maior – e mais intrigante. Sor Addam é um comandante respeitado, mas ninguém na capital era capaz de revelar maiores informações sobre o paradeiro de Tyrek, ou mesmo mais detalhes sobre o que aconteceu com o escudeiro Lannister durante o tumulto - um fato tornado mais notável em face da autoridade emanada por Addam. Lorde Tywin Lannister manifestou sua intenção de encontrar seu sobrinho, porém nem mesmo a mágica de seu nome conseguiu extrair mais uma gota de informação daqueles que poderiam saber sobre Tyrek.
É verdade que, durante a rebelião de Robert, Jon Connington não conseguiu extrair informações do povo de Septo de Pedra: ele havia oferecido subornos e ameaçado com punições, mas as pessoas se recusavam a revelar onde Robert Baratheon estava escondido na cidade. No entanto, lorde Tywin tinha uma reputação muito mais pavorosa do que Lorde Jon.
]Tywin não tinha vergonha de anunciar sua brutal extinção dos Reynes e Tarbecks por seu desafio aos Lannisters; alguns dos portorrealenses podem até se lembrar do Saque no fim da rebelião de Robert, quando os homens de Tywin mataram crianças na rua e estupraram mulheres em suas casas. Se os portorrealenses mentissem agora e fossem flagrados na mentira mais tarde, a retribuição que Tywin traria sobre eles e seus vizinhos seria implacável.
Então, por que ninguém deu a menor dica sobre o que aconteceu com Tyrek? Não há rumor de que ele teria sido morto (embora Bronn considerasse essa como a opção mais provável); em vez disso, Tyrek parece ter simplesmente sumido.
Mais tarde, o próprio Tywin enfatizou seu desejo de encontrar o filho de seu irmão em uma reunião do pequeno conselho:
– Dragões e lulas-gigantes não me interessam, independentemente de quantas cabeças tenham – disse Lorde Tywin. – Seus informantes terão por acaso encontrado algum rastro do filho de meu irmão?
– Infelizmente, nosso bem-amado Tyrek desapareceu por completo, pobre e bravo rapaz. – Varys parecia perto de rebentar em lágrimas. (ASOS, Tyrion III)
Pode-se questionar por que Tywin procuraria informações de Varys. Se milhares de policiais não puderam extrair o paradeiro de Tyrek daqueles que testemunharam o caos do tumulto, a próxima fonte de informação era naturalmente Varys e sua extensa rede de espionagem. O mestre dos sussurros pode não ser tão onisciente quanto muitos acreditam que ele é, mas seu catálogo de informantes é vasto e suas habilidades na coleta de informações são bem afiadas e praticamente inigualáveis.
Os plebeus podem relutar em admitir a oficiais sob a autoridade de Lorde Tywin que viram Tyrek assassinado e seu corpo destruído ou despejado no Água Negra, mas declarações casuais feitas em ambientes mais informais podem ser facilmente captadas por um agente da Varys e entregues ao mestre de sussurros. Era assunto oficial da coroa desde imediatamente após o tumulto encontrar Tyrek Lannister; era, ostensivamente, a responsabilidade premente de Varys coletar qualquer informação sobre esse ponto.
No entanto, embora Varys ostensivamente não tenha recebido informações, sua conduta nessa cena deve ser analisada. Não foi a primeira vez que Varys exibiu teatralmente uma tristeza dramática diante de um Lannister. Em A Fúria dos Reis, Tyrion organizou a prisão de Janos Slynt e seu exílio na Muralha, muito embora Slynt tivesse se recusado a revelar quem o havia ordenado a perseguir os assassinatos do bebê Barra e sua mãe. Após a cena com Slynt, Tyrion teve a seguinte conversa com Varys:
– [...] Foi a minha irmã. Foi isso que o Ah... tão... leal Lorde Janos se recusou a dizer. Cersei enviou os homens de manto dourado àquele bordel.
Varys sufocou um riso nervoso. Então, ele sempre soubera.
– Não me havia contado essa parte – Tyrion disse, acusadoramente.
– A sua querida irmã – Varys respondeu, tão desgostoso que parecia perto das lágrimas. – É duro contar isso a um homem, senhor. Tive receio de como receberia a notícia. É capaz de me perdoar? (ACOK, Tyrion II)
Mais uma vez, Varys conhecia um segredo que a Mão Lannister não conhecia. Encurralado para revelar a verdade ou passar uma mentira plausível, Varys optou por lágrimas dramáticas para transmitir uma sensação de pesar real à situação em ambos os casos. Suas habilidades na pantomima não haviam desvanecido, apesar de seus anos fora da profissão: como um pantomimeiro perfeito, Varys estava utilizando uma distração em sua demonstração de tristeza para desviar as atenções do público das questões prementes reais apresentadas a ele.
O truque não funcionou em nenhum dos dois homens - Tyrion insistiu em maior transparência do mestre dos sussurros, e Tywin estava pronto para "expressar a sua óbvia insatisfação" antes de ser desviado por Kevan - mas o fato de Varys usar a mesma tática duas vezes, diante de público similar, pode sugerir que Varys está mais uma vez privando os Lannisters de um segredo e que ele sabe exatamente o que aconteceu com o jovem Tyrek.
A conversa de Marbrand com Tyrion, no entanto, não seria a última vez que o herdeiro de Cinzamarca comentaria o caso do desaparecimento de Tyrek. Ao partir da capital, Jaime Lannister levou seu amigo de infância consigo. Permanecendo como convidados em Hayford - o assento brevemente ocupado por Tyrek - Addam falou o seguinte sobre a situação:
– Eu mesmo liderei uma busca, por ordens de Lorde Tywin – interveio Addam Marbrand enquanto tirava as espinhas de seu peixe –, mas não descobri mais do que o Bywater antes de mim. O rapaz foi visto pela última vez a cavalo, quando a força da turba quebrou a formação de homens de manto dourado. Depois disso... Bem, sua montaria foi encontrada, mas o cavaleiro não. O mais provável é terem-no derrubado e matado. Mas, se foi assim, onde está o corpo? A multidão deixou os outros cadáveres no local, por que não o dele? (AFFC, Jaime III)
Addam Marbrand levanta um ponto importante. Os corpos de Santagar e Greenfield foram descobertos mais tarde - mutilados, quase a ponto de não serem reconhecidos, mas identificáveis ​​-, sendo que a multidão não faz nenhuma tentativa de descartar os dois, que eram obviamente funcionários da corte. Certamente, o castigo pelo assassinato de um Lannister, primo em primeiro grau do rei (assumindo que a multidão soubesse quem Tyrek era), seria terrível. No entanto, o assassinato alguém de nascimento nobre como Santagar, ou um cavaleiro da Guarda Real, provavelmente também levaria terríveis punições.
As multidões de tumultos estavam em um estado caótico, mais em busca de sangue do que em fazer cálculos frios sobre suas vítimas, e com Tyrek não teria sido diferente. Por que apenas o corpo de Tyrek seria descartado de maneira tão completa que não restava nenhum vestígio dele?
Lyle Crakehall, outro homem do oeste na companhia de Jaime, fez a seguinte observação:
– Ele teria sido mais valioso vivo – sugeriu Varrão Forte. – Qualquer Lannister traria um robusto resgate. (AFFC, Jaime III)
O pensamento, no entanto, foi rápida e efetivamente descartado por Marbrand:
– Sem dúvida – concordou Marbrand –, e no entanto nunca houve um pedido de resgate. O rapaz simplesmente desapareceu. (AFFC, Jaime III)
Mais uma vez, Marbrand foi direto ao cerne da questão. Bronn havia observado anteriormente a oferta de Varys de uma “bolsa gorda” pela devolução de Tyrek, e sem dúvida Marbrand também acreditava que o eunuco mestre de espionagem tornara pública a oferta. Havia muitas oportunidades para os portorrealenses ganharem dinheiro com o desaparecimento de Tyrek, mantendo-o como refém quando a revolta estourou ou, posteriormente, alegando conhecimento do destino de Tyrek (talvez colocando a culpa pelo assassinato em vizinhos detestados).
No entanto, não havia um pingo de informação que pudesse revelar o que aconteceu com o escudeiro Tyrek. Uma gorda bolsa Lannister raramente falhara em soltar línguas antes, mas mesmo assim os rumores do destino de Tyrek não puderam ser arrancados dos habitantes da Baixada das Pulgas.
No comentário de Marbrand, Jaime fez sua própria conclusão - que os portorrealenses, tendo matado Tyrek, jogaram seu corpo no rio por medo da ira de Tywin - mas isso é insatisfatório, mesmo para o próprio Jaime. Por um lado, Tywin não estava na capital na época do tumulto e não retornaria até a Batalha do Água Negra. Na verdade, os portorrealenses poderiam temer o retorno de Lorde Lannister, mas o corpo de Tyrek teria que ser destruído durante o tumulto (uma vez que Tyrion enviou uma equipe de busca para ele logo ao retornar à Fortaleza Vermelha), fazendo do medo de Tywin uma motivação improvável.
Aprofundando-se na questão, Jaime avaliou o que Tyrek poderia representar:
Mas, mais tarde, sozinho no quarto de torre que lhe fora oferecido para a noite, Jaime deu por si com dúvidas. Tyrek servira o Rei Robert como escudeiro, ao lado de Lancel. O conhecimento podia ser mais valioso do que o ouro, mais mortífero do que um punhal. Foi em Varys que pensou então, sorrindo e cheirando a lavanda. O eunuco tinha agentes e informantes por toda a cidade. Seria coisa simples arranjar as coisas de forma que Tyrek fosse capturado durante a confusão... desde que soubesse de antemão que era provável que a turba entrasse em tumulto. E Varys sabia de tudo, ou pelo menos era isso que gostava de nos fazer acreditar. Mas não deu nenhum aviso a Cersei sobre esse tumulto. Nem desceu aos navios para se despedir de Myrcella. (AFFC, Jaime III)
Pode parecer óbvio demais que o destino de Tyrek nos seja transmitido através dos pensamentos internos de Jaime. Jaime certamente tem todos os fatos sobre o Tyrek aqui, mas o importante a se notar é que Jaime falha em juntar as peças. Ele sabe que Tyrek era um escudeiro, sabe que Lancel também era escudeiro, sabe que Lancel efetuou o plano de assassinato de Cersei, sabe que Varys poderia ter arrebatado Tyrek - mas depois para de pensar no assunto.
O monólogo interno de Jaime pode ser comparado à chance de Arya ouvir a trama entre Varys e Illyrio nos porões da Fortaleza Vermelha em A Guerra dos Tronos. De certa forma, é muito coincidente e direto - os leitores conseguem obter um ponto de vista dos dois conspiradores astutos discutindo abertamente seus planos acerca dos Targaryens exilados - mas porque Arya é apenas uma criança, não uma ladina, seu relatório da conversa é confusa e gentilmente descartada por Eddard. Jaime pode adivinhar que Tyrek pode ser útil, mas o modo como Varys poderia usá-lo está além do desejo ou habilidade analíticos de Jaime.
A evidência não resulta em uma conclusão simples. Todos os membros desaparecidos da comitiva real haviam sido devolvidos à Fortaleza Vermelha ou tiveram seus corpos encontrados - exceto Tyrek. Uma busca realizada após o tumulto não conseguiu encontrar mais do que o palafrém de Tyrek. Uma enorme força-tarefa da Patrulha da Cidade não fez nada para dissipar o mistério em torno do desaparecimento do garoto. Varys, o especialista em espionagem, parece ter deliberadamente ocultado informações que recebeu sobre Tyrek. Para onde o garoto poderia ter ido?
Pode ser que Tyrek não tenha sido assassinado nas ruas da Baixada das Pulgas – mas que ele esteja, de fato, vivo e escondido, sob os cuidados de Varys.

O Leão na teia da Aranha

O fato de Varys ter usado o motim em Porto Real para seqüestrar o jovem Tyrek parece uma conclusão possível, até mesmo provável. É improvável que Varys tenha planejado todo o tumulto em Porto Real - as pessoas estavam com fome e raiva o suficiente para não necessitarem de preparação -, mas uma instigação sutil poderia levar os portorrealenses a se aglomerarem nos pontos desejados, dentro dos quais Varys ou seu agente na multidão poderiam arrebatar Tyrek e o colocar sob custódia da Aranha.
Se ele era de fato o mentor por trás do tumulto, Varys havia improvisado uma hábil pantomima. A mulher com a criança morta que interrompeu a procissão real fora colocada na curva de uma rua morro acima; a comitiva real não apenas se moveria devagar, mas o fim da comitiva ficaria fora de vista. É provável que a mulher e o homem que jogaram sujeira em Joffrey tenham sido plantados, colocada em posição de detonar o conhecido pavio curto de Joffrey.
A mulher que se encaixa no gosto de Varys pelo teatral; e o atirador de estrume também parece obra dele, uma vez que a sujeira foi jogada de cima de um telhado. Previsivelmente, Joffrey enviou seu "cão" para a multidão para mutilar as pessoas obedientemente e assim, como era de se eseperar, a multidão de pessoas famintas e espumando tomou a brutalidade de Sandor Clegane como incentivo para retaliar. Plantando cuidadosamente seus agentes, Varys poderia garantir que o tumulto começasse na frente do desfile real, permitindo que o rei de repente corresse perigo a fim de distrair o sequestro de Tyrek na parte de trás da procissão e antes da curva do Caminho Lamacento.
O que Varys iria querer com Tyrek? Primeiro, Tyrek tem uma forte direito de sangue a Rochedo Casterly. Embora esteja agora distante do lugar em que nasceu, Tyrek saltou algumas posições desde então. Lorde Tywin está morto, Jaime inelegível por conta de seu manto branco e Tyrion, um regicida condenado e um traidor, está há dois continentes de distância de seu assento ancestral. Cersei, a Dama de Casterly Rock, está esperando para ser julgada por incesto, adultério e regicídio; ela provavelmente terá sucesso no julgamento, mas seu domínio sobre a coroa permanece tênue. Depois de Cersei e seus filhos viria Kevan Lannister, mas Sor Kevan foi recentemente assassinado - por ninguém menos que o próprio Varys. O filho de Kevan, Lancel, se tornou religioso após a Batalha do Água Negra, renunciou ao assento em Darry para se juntar aos Filhos do Guerreiro, ao passo que Willem foi assassinado por Rickard Karstark; seu irmão gêmeo Martyn e o pequeno Janei permanecem vivos, embora o paradeiro deles seja desconhecido. O próximo reclamante seria o próprio Tyrek.
Varys precisa de um herdeiro Lannister, para estabelecer uma nova ordem política em Westeros. Por quase duas décadas, Varys e Illyrio criaram o jovem Aegon como o príncipe ideal, futuro Senhor dos Sete Reinos, um salvador glorioso para resgatar o reino do caos. A invasão estrangeira, no entanto, pode ser apenas uma parte dessa nova conquista de Aegon: qualquer conquistador bem-sucedido (especialmente um sem dragões) exige o apoio da nobreza local para não apenas derrotar seus inimigos, mas estabelecer um regime viável para o futuro.
Dorne parece preparado para apoiar o principezinho “Targaryen”: posando como filho de Elia Martell, Aegon parece pronto para incitar muitos dorneses, já inquietos, a agir contra a odiada dinastia Lannister. O próximo e ousado investimento de Aegon em Porto Real garantirá sua posição como conquistador das Terras da Tempestade, e pelo menos dois poderosos senhores da Cmapina - e um número incerto de "amigos" - parecem prontos para se juntar à sua causa.
Para o resto dos Sete Reinos, no entanto, Varys precisará formular um plano de ataque diplomático. Tyrek, um Lannister do Rochedo, um legítimo Lorde leão (assim que algumas peças forem arrancadas do tabuleiro), pode servir como um fantoche útil para ganhar as Terras Ocidentais para o futuro Aegon VI.
É claro que, para sentar o jovem Aegon no Trono dos Reis Dragão, Varys precisa derrubar o rei-criança Tommen (e se desfazer da princesa Myrcella). A hoste que o príncipe de Varys estava liderando nas Terras da Tempestade será um forte punho de aço para defender seu ponto de vista, mas Varys também precisa da luva de seda de embasamento legal para arrancar a coroa de Tommen de seus cachos dourados.
A tática mais óbvia (e verdadeira) seria provar que Tommen e Myrcella eram bastardos nascidos do incesto, sem qualquer pretensão ao Trono de Ferro, assim como qualquer outro westerosi. Sua bastardia já era um boato comum em todo o reino, graças a Stannis, mas para encerrar a discussão, Varys precisava de alguém que pudesse oferecer provas.
Tyrek esteve com o rei, possivelmente o acompanhou a bordéis e viu seus bastardos de cabelos pretos como Barra. Além disso, Tyrek poderia testemunhar o papel que Lancel desempenhou ao provocar a morte de Robert, minando ainda mais a posição de Cersei. Cuidadosamente treinado por Varys, Tyrek poderia prestar testemunho que arrebataria a herança de seus primos, abrindo caminho para Aegon restabelecer a dinastia Targaryen.
Então, uma vez que Tommen e Myrcella fossem denunciados como bastardos, Tyrek permanece como a escolha ideal para ser nomeado Senhor de Casterly Rock por seu agradecido novo rei Aegon VI (Martyn e Janei apresentariam um desafio dinástico, mas considerando que Varys não tinha escrúpulos em assassinar o pai deles [Kevan], parece improvável que ele permita que esses pretendentes rivais também vivam). Desconectado dos escândalos dos Lannister em Porto Real, Tyrek é um candidato atraente para governar o oeste e se tornar parte da nova ordem westerosi de Aegon.

Conclusão

Em 1999, George RR Martin ofereceu esta breve e tentadora opinião sobre Tyrek Lannister:
RMBoye: Pergunta simples, de verdade - será que vamos descobrir o que aconteceu com o "Ama de Leite", Tyrek?
George_RR_Martin: Sim, você vai. Tento não deixar muitas pontas soltas. Mas às vezes é preciso aguardar.
Talvez os comentários dele devam ser feitos com mais do que um grão de sal; afinal, na mesma entrevista, ele insistiu que o crescimento dos livros pararia no sexto. Talvez já tenhamos visto Tyrek, no jovem bonito, com a bolsa de dragões de ouro, que Arya nota ter morrido na Casa de Preto e Branco. Talvez a Navalha de Occam esteja correta aqui: que Tyrek foi morto no tumulto sangrento e que os manifestantes jogaram seu corpo no rio para evitar o castigo severo que os Lannisters e a coroa provavelmente lhes causariam.
No entanto, o assassinato por um plebeu desconhecido, ou uma morte inexplicável na catedral de um culto de assassinos, parece uma revelação ruim para a qual o autor precisaria aconselhar termos paciência. De fato, parece mais provável que Tyrek esteja de fato vivo e que Varys tenha os meios, motivos e oportunidades para arrancá-lo da capital e segurá-lo para seus próprios usos.
Somente Os Ventos do Inverno servirá para mostrar se Tyrek retornará com o suposto Aegon VI e ocupará seu lugar em Rochedo Casterly. No entanto, o mistério absoluto em torno do desaparecimento de Tyrek continua alimentando especulações, e os leitores podem tentar prever como é que esse escudeiro de menor importância dos Lannister retornará à narrativa de modo grandioso.
submitted by altovaliriano to Valiria [link] [comments]


2019.12.13 01:57 SunTzuManyPuppies História: Como fui pra Alemanha aos 17 anos, algumas histórias da minha vida lá, e como me infiltrei no backstage de um festival de metal.

Esses dias fiz uma thread contando de quando comi pizza com o Motorhead. O post teve uma boa recepção, então resolvi escrever a história de quando me infiltrei no backstage de um festival na Alemanha. Só que detalhei demais, e acabou ficando mais um relato geral da minha experiência na Alemanha e uns contos que ocorreram por lá, e MUITO mais longo que o esperado! Se quiserem pular, a parte do festival está mais ou menos na metade.

Eu sempre tive dificuldade com os estudos. Reprovei a sexta série, e cada série seguinte foi uma tortura, passando de ano em ano sempre no limiar da esperança. Não é que eu era burro (não muito, pelo menos), inclusive sempre li muito, e tinha um conhecimento geral relativamente bom. Estudei meus primeiros anos em escola bilingue, e aos 3 anos eu lia fluentemente em português e inglês. Minha mãe achava que eu seria um prodígio, coitada... A questão é que eu não prestava atenção. Não suportava ficar parado numa sala de aula, me distraía com qualquer coisa. Eu simplesmente não escutava. Somando o fato de eu ser naturalmente preguiçoso, isso me rendeu muitos problemas durante o tempo de escola. Ironicamente, com 27 anos fui diagnosticado com déficit de atenção e hiperatividade, o que explicou muita coisa.
Quando terminei o segundo ano do ensino médio, falei pra minha mãe que não iria fazer o terceirão. “Ok”, ela disse. Ela sempre foi uma pessoa não convencial, e considerava todo o sistema escolar “bullshit”, nas palavras dela. Então decidimos juntos que eu iria passar um tempo na Alemanha, na casa de amigos da nossa família que estavam dispostos a me receber e me sustentar por lá. Tipo um intercâmbio mesmo. Eles tinham um filho da minha idade chamado Danny.
Meu pai, que Deus o tenha, fez um empréstimo e comprou minha passagem com volta pra Dezembro, e lá vou eu, em Fevereiro, sem falar um cu de alemão pra uma cidade de 100.000 habitantes chamada Cottbus, a 30km da Polônia – onde quase ninguém fala inglês, nem a maioria dos jovens. Suponho que seja algo cultural, por ter sido parte da Alemanha Oriental? Não sei. Sei que isso atrapalhou muito minha adaptação. Cheguei lá com 17 anos recém-completados.
Me matriculei numa escola pública, a mesma que o Danny estudava, o que não sei se fez muito sentido já que eu não falava a língua, mas parecia ser a coisa certa a fazer. Eu não pretendia passar o ano coçando o saco.
O ensino médio alemão é parecido com o americano, onde os alunos escolhem as matérias que vão cursar. Não lembro se haviam matérias obrigatórias, talvez educação física? Mas das que eram escolhidas, duas delas tinham que ser nível avançado, que tinham mais aulas por semana. Eu lembro de ter pego geografia, biologia, música, inglês, informática... e não lembro o resto, sei que ignorei matemática, física e química completamente. E pra matéria avançada escolhi inglês, já que era a aula que eu passaria mais tempo dentro da escola, pelo menos poderia me comunicar. E nas outras matérias não havia chance de treinar o alemão. Eles me liberaram da outra avançada devido à barreira idiomática.
Já ouviu aquela história de alemão ser frio? Pois é. E eu achava que curitibanos eram frios. Sempre fui meio extrovertido, tentava conversar com os outros estudantes, mas todos eram absolutamente indiferentes em relação a mim.
Isso contrastava muito com as escolas no Brasil, que quando eventualmente vinha um aluno de outro país, ele era assediado por todos. Por sorte o Danny me apresentou aos amigos dele e, se não fosse por isso, imagino que teria dificuldade em fazer amizades.
Inclusive uma vez, o único “metaleiro” da escola colocou um anúncio no quadro procurando um guitarrista pra banda dele, com um número de telefone. Nessa época eu já havia abandonado o “estilo” metal, mas comecei na guitarra aos 11 anos e, modéstia à parte, tocava bem pra caralho, e até então já tinha tido várias bandas. Pedi pro Danny ligar pra mim e o cara marcou um ensaio, mas quando ele descobriu que era comigo, ele cancelou. Sem nunca ter trocado uma palavra comigo. #xateado. Eventualmente montei uma bandinha lá, e tocamos em algumas festas.
Educação física era futebol o ano inteiro. Na minha primeira aula eu já havia sido apresentado como brasileiro. Os capitães que escolhiam os times chegaram a discutir pra ver qual time teria o brasileiro. Fui o primeiro a ser escolhido, e cara ficou felizaço que eu ia jogar no time dele. Se fudeu, sempre fui um pereba de marca maior, e a frustração na cara do capitão era visível. A partir desse dia, sempre fui escolhido por último.
Falando em amizades, na minha primeira semana lá, o Danny me chamou pra escalar. Eu topei, claro, e ele disse que o tio dele iria nos buscar. Maravilha. Daqui a pouco chega um jovem com cabelo espetado e cara de bebê, entra na casa direto, me cumprimenta e começa a fazer café da manhã pra ele. Imaginei que fosse um amigo do Danny, e perguntei que horas o tio dele chegaria. “Esse é meu tio”. O cara tinha 19 anos, um ano a mais que o sobrinho. Ele se chamava Sascha, e era um dos poucos (além do Danny) que falava inglês fluente. E ali foi o começo da maior amizade que já tive até hoje. O Sascha se tornou um irmão pra mim, e depois que voltei pro Brasil, ele veio me visitar praticamente todo ano, ficando sempre pelo menos um mês na minha casa. Anos mais tarde chegamos a morar juntos em Berlim por um tempo.
Então, o Danny e o Sascha decidiram fazer uma festa de boas vindas pra mim. A filha do Sascha havia nascido no dia que cheguei, e a então namorada e filha dele ainda estavam no hospital. A festa seria no apartamento do Sascha. Eu tinha 17 anos, já tinha bebido, já tinha ficado bêbado... mas nunca havia bebido como um alemão. Os caras são selvagens no que diz respeito a álcool. Só lembro de poucos flashs dessa noite, mas me recordo de ter acordado vomitado dentro do berço da filha recém-nascida do cara. O início de uma bela amizade.
O Danny estava fazendo auto escola. Alguns dias antes do teste dele, um amigo nosso, Martin, passou lá na casa com o carro do pai dele, um Civic, e nos levou pra um estacionamento vazio pro Danny praticar. Isso devia ser umas 10 e meia da noite. Ficamos uns quinze minutos ali rodando o estacionamento, quando o Martin perguntou se eu queria dar umas voltas também. Meu pai me ensinou a dirigir aos 14 anos, então falei que sim! Sentei no banco do motorista, apertei o cinto e acelerei por não mais que 5 metros, quando surgem dois carros de polícia. Nos param e mandam sair do carro. Menor de idade e sem carteira... fazem teste do bafômetro em mim, e nos deixam um tempão esperando enquanto falam no rádio. Meus amigos tentaram argumentar, mas os caras só ficavam mais putos. Eventualmente nos levaram pra casa na viatura, e pegaram os dados do meu passaporte.
Alguns dias depois chega uma carta do juiz falando que o que fiz foi gravíssimo e absolutamente inaceitável, e que eu corria risco de ser deportado. Na carta, ele pediu pra eu enviar a minha versão dos fatos, então foi o que eu fiz. Contei exatamente o que aconteceu, embelezando um pouco os fatos (“no Brasil não temos carros como na Alemanha, e meu sonho era dirigir um carro alemão”). Duas tensas semanas depois, recebo a resposta do juiz. “O susto foi punição suficiente. Não dirija novamente sem carteira”. Já o Martin levou uma multa nervosa.
Depois de alguns meses lá, recebo uma ligação da minha mãe. Meu pai sofreu um ataque cardíaco (o terceiro dele), e provavelmente não sobreviveria. Foda. O seguro pagou minha passagem de volta, e dois dias depois de eu voltar ele faleceu. Infelizmente não cheguei nem a falar com ele, pois estava sob sedativo. Depois disso fiquei mais três semanas com minha família, mas decidimos que era melhor eu voltar pra Alemanha enquanto eles se reerguiam aqui, além de ser um gasto a menos pra eles. Voltar pra Europa não foi fácil, cheguei a ter algumas crises de depressão e atravessar esse período de luto longe da família foi bem difícil. Pelo menos já havia feito algumas boas amizades por lá que me ajudaram durante esse momento.
Estava chegando o verão e a temporada de festivais. Não tinha companhia pra ir comigo, então decidi ir sozinho pra um festival no sul da Alemanha, quase na fronteira com a Áustria, chamado Earthshaker Fest. Iriam tocar, entre outras bandas, Motorhead, Sepultura, Kreator, UDO, Sabaton, Testament... Vi onde iria ser o festival e comprei um bilhete de trem pra cidade mais perto, que se não me engano era Kreuth. Comprei barraca, saco de dormir, e fui completamente na louca, falando mal e porcamente alemão, sem Google Maps e sem planejar nada.
Desembarquei em Kreuth (que ainda era longe do local do evento) e comecei a mostrar o panfleto do festival pra pessoas aleatórias na rua, e ninguém sabia nada. Chegou a bater um mini desespero, mas daí perguntei pra um senhor de bicicleta; ele deu um sorrisão e exclamou “JA, JA! Komm mit, komm mit! Follow! Follow!” e saiu pedalando, e tive que ir correndo atrás da bicicleta dele enquanto ele gritava “Follow! Follow!”. Depois de uns 10 minutos correndo, chegamos numa estação de ônibus. Ele me apontou um ônibus “This! Last stop!”. Eu agradeci, e embarquei no ônibus.
Depois de uma hora e meia de viagem mais ou menos, o ônibus já estava vazio. O motorista para num cruzamento no meio do nada com lugar nenhum e manda eu descer. “Letzter Halt!”, última parada. Obedeci, e o ônibus foi embora. Era uma encruzilhada, e não tinha uma alma viva ali perto. “Fodeu”, eu pensei, mas daí vi um carro estacionado bem longe, e fui até ele. Quando cheguei perto, vi que o banco de trás estava cheio de material de acampamento, e os caras estavam claramente indo pro festival. Ufa, pelo menos estou no caminho certo. Pedi uma carona, mas já sabia que não ia dar porque o carro estava cheio. Pelo menos eles me apontaram pra onde ir. “12km praquela direção”. Bom, é melhor eu começar a andar então...
Fui andando na beira da estradinha, que estava vazia. Quando eventualmente passava um carro eu levantava o dedão pedindo carona, mas não tive sucesso. Depois de uns 10 minutos caminhando, já tinha me conformado que teria que andar os 12km, quando ouço uma música vindo de longe. Olho pra trás, e é uma van vermelha tocando metal no último volume vindo na minha direção. Pensei “é agora ou nunca” e estendi o dedão. Os caras passam por mim e param uns 30 metros adiante.
Da van pula um alemão gritando, vestindo só um chapéu de bombeiro, colete de couro e um kilt, além de um copo de cerveja em cada mão. O som tava rolando alto, nem perguntei pra onde eles estavam indo, só entrei na van onde tinha mais 3 caras além do motorista, e TRÊS BARRIS DE CERVEJA. DOS GRANDES. Eles estavam eufóricos, rindo, berrando, falando comigo em alemão, e eu falei “WAIT, WAIT! Please, english only! I’m from Brazil”. Daí que os caras surtaram de vez “YEAAAH BRAZILLL, SEPULTURAA, FUCK YEAAAH” e fui alegremente bebendo na van até o festival.
Chegando lá, armei minha barraca do lado do acampamento deles e passamos boa parte do tempo juntos. O clima da área do camping era animal, muita gente se divertindo, bebendo, curtindo... aquela frieza típica dos alemães não existia lá. Chegamos um dia antes do festival começar, então os shows começariam só no dia seguinte.
O clima de camaradagem entre completos desconhecidos era algo que eu nunca havia visto. Uma hora eu estava andando pelo camping e tinha um cara sentado numa mesa do lado de um trailer. Ele me chama pra tomar uma cerveja ali com ele. Peguei uma garrafa que estava num cooler na mesa e disse “muito legal tua estrutura aqui”, e ele respondeu “não é meu!” Perguntei de quem é. “Não faço idéia!” Na mesma hora chega com um sorrisão no rosto o dono do trailer, um gordo barbudo cabeludo de 1,9m de altura. Ele se senta na mesa e distribui mais cerveja pra todo mundo, e ficamos um tempão ali enchendo a cara.
Inclusive não gosto muito desse negócio de síndrome de vira-lata, mas a diferença entre festivais do Brasil e de lá é brutal. Não é nem questão de estrutura, mas de energia mesmo. O último que fui aqui no Brazil, o Zoombie Ritual em 2013, porra, tinha uma galera escrota pra caralho, um cara chegou a puxar briga comigo por causa de barraca, me estressei bastante. Totalmente diferente. Enfim...
No festival encontrei dois brasileiros, um era representante da Roadie Crew e o outro acho que era do Whiplash, os dois estavam cobrindo o festival. Minha primeira noite de acampamento foi uma merda, dormi mal pra caralho, muito barulho e muita zona. Então combinei com o cara da Roadie Crew de pagar uma quantia pra ele e dormir no chão do quarto de hotel que ele tava, que era bem pertinho. Então a barraca ficou só de QG durante o dia no festival, e à noite tomava banho e dormia no hotel.
O legal desses festivais é que várias bandas fazem sessão de autógrafos, então aproveitei pra pegar autógrafos das bandas que curtia. E com absolutamente todas, eu chegava pra alguém “ei, vamo ali no bar tomar uma cerveja?”, e todas recusavam. Até que fui pegar o autógrafo de uma banda inglesa de prog metal relativamente desconhecida (que eu curtia pra caralho) chamada Threshold. O vocalista original tinha acabado de sair da banda, e quem estava cobrindo pra ele era um cara chamado Damian Wilson. Eu já conhecia o trabalho do Damian, ele fazia o vocal das músicas do Rick Wakeman (tecladista do Yes), Alan Wakeman, e fez também um personagem no que considero um dos melhores discos já gravados, “Into The Electric Castle”, do Ayreon.
Falei pra ele “bora tomar uma cerveja ali no bar?” e ele topou na hora, pulou por cima da mesa e fomos. Tomamos um chopp e ficamos batendo papo, mas chegava muita gente falar com ele. Ele disse “vamos no restaurante das bandas lá atrás que é mais tranquilo”, e eu respondi que não tinha acesso àquela área. O cara imediatamente tira a credencial de banda dele e coloca no meu pescoço. “Pode deixar que eu dou um jeito de pular ali por trás”.
CA-RA-LHO. Bom, tomara que essa merda dê certo. Passei tranquilo pela segurança, que viu a credencial. ACESSO TOTAL. Encontrei de novo o Damian ali atrás, e era mais ou menos hora do almoço do último dia do festival. Ele me pergunta se eu estou com fome. Tava morrendo de fome, e comendo mal pra caralho desde que cheguei. “Só um pouquinho”. Entramos no restaurante das bandas, e vários músicos estavam lá. Muitos eu não conhecia, mas que eu reconheci era o Paulo Junior do Sepultura, e o Mike Terrana do Masterplan.
Fui levado até a mesa da banda do Damian, onde ele me apresentou pra cada um da banda e me fez sentar ali. Peguntou “você come carne?” eu disse que sim, e lá foi ele fazer um prato de pedreiro pra mim no buffet. Enquanto almoçava fiquei conversando com os músicos, todos absurdamente simpáticos, e tirando a barriga da miséria. As mesas eram todas muito juntas, e daqui a pouco chega o Dani Filth pra almoçar, e senta exatamente do meu lado. Ele estava com “meia” fantasia pro show que ainda iria fazer, sem a maquiagem, mas com as calças do capeta. Eu até curto um pouco de Cradle of Filth, mas não conheço quase nada. Virei pra ele e falei “parabéns pelo álbum novo” (nem tinha ouvido na verdade). O cara foi um lorde gentleman, extremamente simpático, agradeceu e ficou um tempão falando sobre como o álbum foi escrito.
Dali a pouco o Damian diz “você gosta de Within Tempation? Vem aqui, deixa eu te apresentar eles”, e me levou até o camarim dos caras. Infelizmente só estava o guitarrista lá, e os dois ficaram conversando e eu fiquei boiando.
Não lembro exatamente como, mas acabamos nos separando. E eu fiquei com a credencial dele. “Bom, vou aproveitar né”. Andei por tudo lá atrás, cruzava com o pessoal das bandas, mas tentava não chamar muito a atenção. Encontrei meu amigo da Roadie Crew lá atrás “como que vc entrou aqui???” Contatos, meu amigo... na hora do Motorhead, entrei pelo backstage e assisti sentado no palco, de trás, quase do lado da bateria. No meio do show, resolvi ir ali no chiqueirinho dos fotógrafos, na frente do palco, tirar umas fotos. Vários fotógrafos profissionais com câmeras gigantes, e eu com a minha camerazinha mais barata do mundo. Nesse momento quase deu merda: eu ainda estava com a pulseira de “plebeu”, de público normal. Um segurança agarrou meu braço, e eu imediatamente mostrei a credencial! O cara largou, mas ficou cabreiro, e eu saí logo dali.
O Motorhead foi a última banda a tocar. infelizmente só consegui a credencial no último dia, mas deu pra aproveitar o festival bem pra caralho do início ao fim e fechando com chave de ouro. Só com muita sorte pra ter outra oportunidade dessas.
No fim, adiei minha volta pro Brasil pra algumas semanas depois desse evento por conta da minha família. Mas olha, esse final de semana me abençoou num dos períodos mais difíceis que já passei.
Alguns anos depois, num show do Iron Maiden em Curitiba, encontrei o cara do Whiplash que conheci lá no festival. A primeira coisa que ele me disse: “CARA, o Damian Wilson tava louco atrás de vc!!! Ele se ferrou porque não conseguia ir em lugar nenhum sem a credencial!” Ops...
Um tempo depois contatei o Damian pelo Facebook, com a foto da tal credencial e pedindo desculpas. Ele nem se lembrava mais, achou engraçado, e me chamou pra tomar um pint quando eu estiver em Londres.
Na foto, a credencial e alguns dos autógrafos que peguei durante o evento. Desculpem se enrolei demais e fugi do tema, mas acabei me empolgando.
Qualquer hora conto a história de como enchi a cara com o Edguy, mas daí sem incluir a minha história de vida.

https://imgur.com/a/19VyNWP
https://i.imgur.com/kMHIDEq.jpg
submitted by SunTzuManyPuppies to brasilivre [link] [comments]


2019.05.20 04:44 euamocachorros79 [DQ] Eu não sou filho único

Foram necessários dezenove anos para encontrá-lo. Eu precisava de respostas para as perguntas acumuladas no período. Usei as ferramentas ao meu alcance, o orgulho entricheirando as soluções óbvias. Não, eu não poderia procurá-lo através de parentes ou conhecidos. Não, para obter o efeito desejado eu precisava da surpresa, da falta de tempo para raciocínio. Eu queria a espontaneidade.
Na sala de aula, só eu tinha apenas um sobrenome. Camilo da Silva. Era com raiva que respondia aos questionamentos dos colegas acerca disso. Também lembro da vergonha, o rosto em chamas e os olhos baixos, ao mostrar a carteira de identidade para obter o passe escolar e saber que todos reparavam no espaço deixado em branco onde deveria constar o nome do pai. Apesar de tudo, minha mãe soube me dar educação, abrindo-me os olhos em relação ao valor do estudo e do trabalho honesto. Dediquei bastante atenção aos dois e, aos poucos, fui colhendo os frutos que a vida me oferecia, algumas vezes doces e suculentos, noutras amargos e ressequidos.
A aprovação na faculdade de Ciências Econômicas me proporcionou, já no segundo semestre, a oportunidade de trabalhar como estagiário no banco regional, onde pude acessar os dados de todos os clientes, e pelo pouco que sabia do seu histórico profissional, além do nome completo, era quase obrigatório que sua movimentação financeira fosse através da instituição financeira septuagenária.
Relutei durante semanas, calculando os possíveis resultados de um contato, reordenando fatores impossíveis de serem controlados, somente cedendo à curiosidade diante da encruzilhada, quando olhar para frente era motivo de ansiedade e incerteza, e perceber que meus olhos, ao percorrerem o passado, só encontravam metade da história. Resoluto, cumpri com diligência todas as tarefas exigidas numa tarde de sexta-feira. Aguardei a saída dos colegas mais próximos e acessei o programa que me possibilitava a busca por clientes tanto pelo número do CPF quanto pelo nome. O frio na barriga desfez-se em segundos, o prompt piscando na tela de fósforo verde logo após a pesquisa retornar apenas um cliente com o teu nome de anjo. Samuel Guerra de Olea.
No velório de minha mãe, entre relatos e confidências difusas, familiares mais próximos e amigos da cidade do interior onde eu nasci, falaram que ao me ver já grandinho, entre o segundo e o terceiro ano de vida, você disse que eu jamais poderia ser fruto do enlace entre vocês. Eu exibia cabelos claros que brilhavam ao sol, no meu brinquedo preferido de infância, um balanço que me deixava antever um futuro cheio de aventuras e provocava dor nas mãos pequenas agarradas com força às correntes que me mantinham em equilíbrio sobre o assento de madeira polida e pintada de vermelho.
Não mencionei isso na carta que lhe escrevi. Antes de rancores ou decepções eu queria saber de onde eu partira. Procurei esclarecer quem eu era, apesar de saber que suas irmãs sabiam da minha existência, e pedi para te conhecer, pessoalmente. Exatos quinze dias depois da postagem, cheguei em casa e um envelope ordinário me aguardava, dentro dele, suas linhas em caligrafia rebuscada informavam teu número de telefone e sugeriam uma data próxima para nosso encontro, entre outras amenidades dirigidas a um possível filho até então esquecido. Acompanhava tua missiva uma foto. De corpo inteiro, altivo no uniforme de gala da polícia militar e óculos escuros. Lembro que fiquei assustado com a semelhança dos nossos rostos.
Com uma mochila nas costas, sua carta e foto ao alcance as mãos, parti para a jornada que me transformaria, de filho único para irmão de outros três rapazes e três mulheres. Você me recebeu na rodoviária suja. Eu não enviara foto alguma, mas você me reconheceu no momento em que desci do ônibus. Aproximando-se, a mão estendida e muito falante, mencionando que seu filho mais velho e eu poderíamos passar por gêmeos. Não nos abraçamos.
Rodamos em silêncio dentro do táxi, até a pousada em que eu ficaria. Fiquei espantado ao saber que ali era sua morada também. Durante dois dias, uma sexta-feira e um sábado, conversamos sobre tudo. Nossos passados, nossas origens, política, preferências por times de futebol, o que fizéramos até ali e o que imaginávamos para nosso futuro. Ouvi sua versão dos fatos e tentei não julgar suas palavras. Conheci apenas dois dos meus irmãos, um menino três anos mais novo e uma moça, apenas dois anos mais velha que eu. Não escondi minha alegria em ouvir suas histórias e descobrir pequenos retalhos de suas vidas. O suposto gêmeo não morava mais por ali e só o vi através de retratos.
Lembro das suas lágrimas ao me chamar de presente no final da vida, suas mãos senis segurando as minhas novamente na rodoviária que cheirava à urina. Lembro do seu pedido para que não deixasse de mandar notícias. Lembro do cansaço que me dominou assim que o ônibus partiu. Não. Eu não seria vampirizado, eu não queria fazer parte da sua vida, eu apenas precisava esclarecer a minha. Deixei qualquer afeto que pudesse ter existido por ti para trás, bagagem não reclamada dentro do ônibus que me trouxera até capital. Descobri sua morte, por acaso, através das redes sociais. Teu nome agora acompanhado da expressão "in memoriam".
Apesar de não ser mais filho único desde aquele encontro, só aprendi o que é família após casar com a companheira mais dedicada e compreensiva do mundo e ser pai de dois meninos que são a minha maior realização. O mais velho está quase terminando o ensino médio e pensa em fazer Ciências Econômicas, o menor está me pedindo para andarmos de bicicleta juntos. Preciso ir.
submitted by euamocachorros79 to EscritoresBrasil [link] [comments]


2017.09.25 21:45 botafora01 Sinto que a minha vida já está traçada

Desde já peço desculpas pela muralha e pelo throw away
OK, desde o Ensino Médio eu sofria com algo que eu imagino 90% do Reddit sofreu: não conseguia pegar sequer resfriado. Era extremamente zoado pela sala toda por isso (meus amigos até hoje dizem que eu sou o único da turma que nenhuma mulher chegou), cheguei até a apanhar por isso. Só fui perder meu BV no meu ano de calouro na faculdade e a minha virgindade quando fui num bordel. Eu ficava triste com isso, mas também estava esperançoso: afinal, era um adolescente, estava entrando na faculdade, e todos sempre me louvavam por, segundo eles, eu ser muito inteligente. A menina que eu gostava na época, e que até hoje é uma amiga (e que eu passei a maior vergonha da minha vida, ao me declarar pelo fucking MSN), vivia brincando dizendo "O nerd de hoje é o cara rico de amanhã". Boas memórias.
Chegou 2013, e eu entrei na faculdade. Não fui maravilhosamente bem no ENEM, mas consegui uma bolsa integral em Administração em uma bela universidade. Escolhi Adm por pensar que o mercado estava bom e por ser noturna, o que me permitiria trabalhar. Nesse período, perdi meu BV e fiquei com outra menina uma vez, num espaço de 9 meses. Pra mim, isso era o ápice, eu era o deus da conquista, mesmo que meus novos amigos me zoassem de "pega ninguém" do mesmo jeito. Nessa época, eu baixei o Tinder e conheci o meu primeiro namorico, vamos chamar de Ana. Ana morava a 3h30 de viagem, então era praticamente um namoro à distância. Ficamos algumas vezes, 3 meses depois começamos a namorar e, depois disso, ela passou o mês seguinte dando desculpas para eu não ir lá. Chegou fevereiro, veio o carnaval, e ela disse que estava passando mal. Foi para o hospital e detectaram leucemia. Óbvio que eu pirei, queria ir pro hospital dela de todo jeito, mas ela nunca deixava, dizia que os pais me viriam, iria arrumar encrenca, ela iria ver um momento que estivesse sozinha. Se passaram 5 meses nesse tormento, hora ela dizia que estava boa, hora dizia que estava mal, quimio e afins, até que meus amigos de sala fizeram uma intervenção comigo, mostrando que não havia nada em rede social nenhuma dela a respeito de câncer, mostrando que ela estava postando normalmente sobre coisas cotidianas e que era a maior retardadice do mundo eu não ter ido nenhuma vez ver ela. Eu fiquei meio balançado, até porque meus pais concordavam com este ponto de vista, mas fiquei meio irregular com ela. Pouco mais de um mês depois disso, ela disse que tinha tido alta, tinha encontrado um ex, tinha ficado com ele e queria terminar. Não lamentei muito, até porque isso ocorreu em um espaço de uma semana, no máximo. Terminei e, desde então, ouvi dela duas vezes na vida. Passou.
Vale mencionar que, nesse meio tempo, a minha vida em casa havia melhorado demais: durante meu período de Ensino Médio, minha adolescência se resumia a passar finais de semana com minha mãe em bares, vendo ela entrar quase em coma alcoolico com as amigas e outros finais de semana na casa do meu pai, vendo ele ficar bêbado e chorar no meu ombro sobre ele ser um fracassado que não conseguiu sequer manter um casamento. Quando eu terminei, minha mãe já estava mais centrada (como está agora), saindo ocasionalmente e socialmente, e meu pai parou de beber após enfartar e voltou a ser o cara extremamente trabalhador que eu sempre admirei. No fim do meu primeiro ano de faculdade, eu passei a estagiar em um instituto federal. Ao mesmo tempo do término que eu disse acima, eu fui chamado para um concurso temporário, em outro órgão público, bem mais perto de casa.
Poucos meses após eu terminar com a Ana, entrou em cena a pessoa que eu, de fato, considero como a única que eu namorei. Vamos chamar ela aqui de Beatriz. Beatriz me chamou no Facebook, para brincar sobre uma postagem que eu havia feito (já havíamos tido pequeno contato ainda no colégio), e daí começamos a conversar. Dois meses depois, ficamos e, 5 meses depois, começamos a namorar. Ela perdeu a virgindade comigo e, na prática, eu também perdi com ela (transei com prostitutas umas 4 vezes antes. Fiz exames, por precaução, e não deram nenhum reagente). Eu aprendi demais a me aceitar com ela, nós tínhamos a mesma personalidade, ela era a primeira pessoa que não só não me julgava por meus interesses, como me incentivava a seguir eles. Não me cobrava nada, eu não cobrava nada dela, mas conversávamos de forma quase ininterrupta das 7 até meia noite. Com ela, no entanto, eu descobri algo que já havia visto antes nos bordeis: não sei o que me causa, mas com certeza eu tenho ejaculação precoce. Fui em um urologista, que me disse que era algo psicológico, que eu só precisava "me desligar". Tentei os exercícios que o próprio Reddit indica, mas nunca funcionava. Usei camisinha anestésica 2 vezes: uma vez foi uma maravilha, na outra estourou e eu traumatizei. Sempre me sentia extremamente culpado e furioso comigo mesmo após cada fim de penetração, mas o que atenuava era a presença dela, que sempre me dizia que não ligava, que eu conseguia deixar ela no céu somente com as preliminares, que não ligaria de passar por isso por não sei quanto tempo. Tudo que eu me julgava errado, ela me mostrava que não ligava. Eu me sentia num porto seguro com ela, e isso me impulsionava na faculdade: eu imaginava que iria me formar em um emprego na iniciativa privada, sem "data de validade" como meu emprego temporário, e que, 1 ou 2 anos após isso, estaria casado com ela. O único motivo de discussão que tínhamos era que ela tinha total ojeriza de tornar público: não podia postar nada com ela no Facebook, não podia atualizar status de relacionamento, não podia ir conhecer os pais dela, que "iriam proibir completamente". Mesmo os amigos eu só vi 2 vezes (uma outra vez eu não pude ir por motivos profissionais). Eu sempre entendi que isso era um receio dela, então, mesmo um pouco frustrado, eu aceitava. No que eu terminei minha monografia, estava preocupado com a questão do mercado, mas nada demais. Até que veio o dezembro, 1 ano e 4 meses após começarmos a ficar.
Eu estava na faculdade, pegando os convites de formatura, quando ela mandou o tradicional "precisamos conversar". Resolvemos por texto mesmo: ela disse que gostava de outra pessoa, e que se sentia culpada namorando comigo com interesse em outro. Aceitei, triste, e demos um tempo. 2 dias depois, um amigo me manda uma foto no perfil de um rapaz, que era o mesmo que ela gostava: ambos deitados, ela de top e ele sem camisa, e uma descrição bem...insinuante. Óbvio que eu pirei, liguei para ela, tivemos uma baita discussão, mas, depois disso, esfriou. Acabamos nos vendo, e ficando de novo. Ela terminou com o rapaz, mas ainda jurava de pés juntos que aquela foto era uma coincidência, que ela não havia me traído, que jamais faria isso, que era íntegra. E ficamos uns bons 3 meses indo e voltando até que, em abril, ela me mandou um testamento contando tudo: numa segunda, ela estava na casa de uma amiga, com este rapaz e o cara que a amiga estava pegando. A amiga e o peguete dela começaram a dar uns amassos no local e, segundo ela, ela não conseguiu "resistir" e montou no cara. Uma traição espetacular, que até hoje eu uso como humor auto depreciativo. Fiquei em choque por um tempo, mas, contra os conselhos de todos, perdoei ela e voltamos a namorar. Mas não era a mesma coisa. Ainda era maravilhoso por um aspecto, mas, por outro, ela estava insegura com o relacionamento (dizia que se sentia culpada por ter "estragado tudo por um impulso") e eu estava inseguro com tudo, precisava de validação dela pra tudo, principalmente no que tangia sexo. Eu já era inseguro sexualmente antes, agora era 3x mais, então eu basicamente a induzi a me contar toda a experiência sexual dela com ele, até eu me sentir menos perdedor. No entanto, eu estava começando a me recuperar em junho, estava me reencontrando, entendendo que estava apertando ela desnecessariamente (uma amiga teve essa conversa esclarecedora comigo). Então, tanto como solidificação como um pedido de desculpas, eu planejei uma viagem para nós, no dia que ficamos pela primeira vez, que cairia num sábado. Disse para ela os planos, ela ficou elétrica, empolgada, começou a me mandar links do local, brincar com meus planejamentos e afins...e, na semana seguinte, pediu para terminar. Disse que nunca esteve certa sobre nós termos voltado, que ela ainda me amava, que ainda sentia tesão comigo, mas que não se sentia pronta para um relacionamento sério, e "não queria me magoar". Aceitei, até mantive o contato, pq, nesse meio tempo, ela virou a minha melhor amiga. Mas o mesmo amigo da vez anterior me mandou um print de uma conversa dela com a irmã dele, dizendo que tinha terminado por estar afim de outro cara, e eu reconheci o sujeito: era um cara que ela falava horrores bem dele, "ah, fulano fez isso, fulano fez aquilo, me ajudou com x, um cara foda, faz não sei o que". Não sei se ela me traiu, mas tal conversa era de 1 dia e meio após termos terminado, e ela já havia ficado com tal cara. Não sei se ela me traiu de novo, mas a confrontei (não falei do meu amigo, obviamente, disse que a vi na rua) e ela manteve que não me traiu, mas que, dessa vez, poderia ficar com quem quisesse pq "fez a coisa certa". Eu disse que não conseguiria conversar com ela enquanto ainda tivesse sentimentos, ela disse que entendia, mas que queria saber de mim, que eu ainda era "o melhor amigo" dela.
Isso faz um mês e meio. Eu não consigo deixar de me sentir mal. Eu podia ter feito tanta coisa melhor, mas não fiz. Ela me traiu, possivelmente duas vezes, e tudo que eu consigo fazer é me culpar. Eu só não a chamei ainda pq imagino ela ficando com esse cara, que é melhor que eu em tudo: mais bonito, com uma barba farta de lenhador, com uma carreira já estabelecida, carro na garagem, mora sozinho e afins. O que me leva ao lado profissional: a sala da faculdade se reuniu para um churrasco há 3 semanas, estávamos conversando sobre empregos e eu concluí algo: apesar de que eu (e eu sei quão arrogante isso soa) ter feito que metade da sala ganhasse um diploma, eu sou o único dali sem um emprego minimamente fixo e tenho um salário que é o menor de todos, com vantagem. Todos falam que eu vou ganhar 3k, 4k logo, mas eu já cansei de tomar portadas de empresas. Gasto com passagem, gastei com um terno novo, gravata, e tudo que eu consegui foram muito obrigados, mas uma parcela da minha sala que literalmente não consegue entender que 50% e 0,5 são a mesma coisa (eu tive que ensinar manualmente regra de 3 simples e cálculo com números decimais quando estudamos Matemática Financeira) estão em empregos bons na iniciativa privada, comprando casas e carros. E, de todos ali, só uma me arrumou entrevista na empresa dela (que eu não consegui, principalmente por dita empresa estar num processo de fusão). Quatro conversam ocasionalmente, e o resto só entra em contato pedindo para que eu faça para eles provas de inglês de processos seletivos ou provas da faculdade (para os que ainda não se formaram).
Eu estou fazendo Contabilidade agora, vendo se consigo recomeçar, mas estou extremamente desiludido. Não sei o meu problema, mas o que eu imaginava quando entrei na faculdade não aconteceu. Eu sou um total fracassado no mercado de trabalho, e dificilmente vou conquistar algo além de pular de trabalho em trabalho de escritório, para tirar 2 salários e soltar rojão de alegria por não estar desempregado. Na verdade, eu já imaginava algo nessa linha desde o último semestre, mas, além da esperança mínima, eu carregava que iria ter uma família. Alguém me aceitava, alguém me amava. Hoje, eu vejo que nem isso. Nesse mês e meio pós-término, eu percebi como meu stock está horrorosamente baixo. Ouvi diretamente de uma estranha (no Tinder, vale dizer) como eu sou "feio, com cabelo estranho e roupas deprimentes". A maior parte dos meus amigos disse que eu vou achar alguém, mas só uma amiga me apresentou para alguém (Spoiler: eu quis levar pra amizade pq esta pessoa demonstrou 0 interesse romântico em mim, mas temos muitas afinidades de gostos. Não quero que alguém legal se perca só por não querer abrir as pernas pra mim em qualquer futuro).
Então, qual a conclusão? Para relacionamentos, eu sou a tempestade perfeita: meus gostos não são nada pop, meu estilo de roupa desagrada geral, minha voz é deprimente, eu sou lerdo, distraído, amo entrar em rants gigantes quando me empolgo (vide este texto) e, mesmo que alguma garota um dia resolva passar por isso tudo, o prêmio dela será ter de viver com sexo oral recheado por 30s de penetração, num dia bom. Nenhuma mulher no mundo quer se relacionar com um homem que precise fazê-la ter um orgasmo com masturbação pq não aguenta chegar a 1min de penetração. Ou seja, eu até posso tropeçar em alguma peguete (sim, essa é a palavra, tropeçar. Um incidente do acaso, como foi com a minha ex), mas nenhuma jamais chegará a ser de longo prazo. Dificilmente eu terei uma família. E, sem uma família, não há nada para contrabalancear o fato de que eu sou um fiasco profissional. O "menino gênio" do colégio, o "cara que vai ganhar 7000 daqui 3 anos" da faculdade nada mais era que uma pessoa com um par de neurônios no meio de um grupo de pessoas com bases educacionais mais fracas que a minha e, principalmente, sem interesse algum em estudar. Numa sala focada, eu teria de me esforçar para estar no meio do pelotão. Eu sou mediano intelectualmente e, profissionalmente, sou um lixo que não conseguiu fazer networking na faculdade e, hoje, irá ter de viver de escritório em escritório, sem nenhum breakthrough.
Minha vida parece estar desenhada para ser a definição de um fiasco, de um total e completo desperdício de oxigênio. Mas eu tenho uma missão: cuidar dos meus pais. Ambos dependem demais de mim psicologicamente, ambos me amam mais do que qualquer outra coisa. Sem a minha presença aqui, a vida dos dois colapsaria. Sinto que eu só vim ao mundo para ser o pilar da vida de ambos. Então, eu tenho que ir empurrando a minha vida enquanto ambos estão vivos, tentando ao máximo não embaraçar eles mais. Decidi que vou viver a vida no limite nesse meio tempo: finalmente comecei a fazer academia (minha postura sempre foi torta e, nos últimos 2 meses, eu ganhei peso. Quero eliminar essa pança antes que ela vire um problema), fui ao Maracanã mês passado ver a ida da Copa do Brasil (sou de MG), devo receber uma indenização boa quando sair daqui e estou planejando um mês de curso de inglês na Europa (meu inglês é bom, mas não é perfeito e isso sempre me incomodou horrores, sem falar que conhecer a Europa é O sonho que eu tenho de vida). Será o meu maior highlight, e a única loucura que eu me permiti fazer. Quando voltar, vou fazer o que gosto e, mais importante, vou cuidar dos meus pais, de tudo que eles precisarem de mim.
Não sei o que o futuro reserva pra mim, mas, pensando com lógica, eu devo chegar nos meus 35/40 anos quando ambos meus pais falecerem. Quando isso acontecer, serei um solteiro entrando na meia idade, possivelmente com pouca experiência sexual que não envolva garotas de programa, num emprego pouco satisfatório e sem nenhum amor que tenha sido recíproco e que não acabe na mulher se cansando de um cara patético e percebendo que praticamente qualquer coisa é melhor que eu. Será covardia, alguns sentirão tristeza, mas será temporário, todos irão superar, e haverá um pouco mais de oxigênio no mundo.
A minha mente ainda tenta, em alguns momentos, achar alguns cenários de ilusão, de que algum milagre irá acontecer, mas não irá. Eu sei que não. Profissionalmente eu fracassei. Academicamente eu fracassei. E, amorosamente, eu também fracassei. Vi que não basta achar alguém que aguente a minha personalidade, ela não irá suportar alguém que trata preliminares como Evento Principal, e eu irei morrer com esta condição.
Por mais paradoxal que seja, pensando assim eu estou aprendendo a abraçar o que eu gosto. Eu gosto de ler. Eu gosto de sair para comer e voltar para casa. Eu gosto de esportes. Eu gosto de escrever. Eu gosto de viajar. Não vou mudar o que eu gosto pelos outros, até porque será inútil, resolver um sintoma não cura a doença, e não há remédios o bastante para curar todos os sintomas dessa doença chamada eu. Fico feliz pelos meus pais existirem, pq, se não fosse por eles, eu teria sido um fiasco absoluto em vida. Fico feliz pelo meu último namoro, pq eu nunca me senti mais feliz do que numa tarde de sábado, quando ela disse "te amo" pouco antes de cochilar no meu peito. Eu fui feliz com o amor, e, por causa dela, eu aprendi que todo relacionamento que eu entrar, obrigatoriamente, terá um fim unilateral. Eu vou ser feliz com meus outros desejos, concluir meus hobbies, fazer o que eu gosto, e cuidar de quem me ama incondicionalmente, até o fim deles. Dali, serei eu que terei meu livramento.
Eu precisava contar isso pra alguém, mas não quero que tratem isso como um pedido de ajuda, pq não é. Meu real objetivo de vida sempre foi ter uma família minha, ter um filho em uma casa estruturada e passar meu conhecimento adiante. Eu já sei que, por questões psicológicas e físicas, isso jamais acontecerá. Quando meus pais se forem, eu literalmente não terei mais o que fazer aqui e, se tudo der certo, eu terei realizado ao menos uma parcela boa dos meus outros sonhos. Eu estou tranquilo quanto a isso. Talvez ainda sinta, de novo, a dor de ver alguém me trocando por outra pessoa melhor, mas agora eu sei que isso acontecerá. Doerá menos, eu espero. E, se nem isso eu conseguir, bem...dois salários por mês dá para pagar por sexo.
De novo, desculpem pelo texto gigante.
tl;dr: Todos confiavam em mim, todos achavam que meu futuro seria brilhante. Meu futuro será medíocre, patético e, ao menos, tem uma data para acabar
submitted by botafora01 to desabafos [link] [comments]


2015.12.15 20:18 MarceloMosmann Obesidade não é simplesmente uma escolha

Obesidade é um dos maiores problemas de saúde no mundo, e vem normalmente acompanhada de várias outras doenças, que combinadas matam e fazem sofrer milhões de pessoas por ano.(1, 2) Essas doenças incluem diabetes, doença cardiovascular, câncer, derrame, demência, síndrome do ovário policístico, disfunção erétil, artrite e outras.
Obesidade e Força de Vontade
Quando o assunto é ganho de peso e obesidade, muitas pessoas acham que engordar é simplesmente uma questão de falta de força de vontade. Culpam a falta de força de vontade e a preguiça pela obesidade.(1, 2) Isso é ridículo! Esse tipo de pensamento só faz o obeso se sentir mal consigo mesmo, acreditar que a culpa é só dele, quando na verdade não é! O que precisamos é encontrar uma forma de resgatar a saúde do obeso, mas esse tipo de pensamento o prende nessa condição de gordura e doença. Concordo que ganhar peso (ou perder) é um resultado de nosso comportamento. Entretanto o comportamento humano é algo muito complexo. Somos guiados, muitas vezes sem nem nos darmos conta, por fatores como genética, hormônios, ambiente e questões de saúde. Comportamento alimentar é guiado, assim como comportamento sexual, por vários processos. Alguns desses fatores estão fora de nosso controle racional.
Dizer que esse comportamento e o ganho de peso que dele resulta é simplesmente uma questão de falta de força de vontade é muito simplista. Isso não leva em conta todos os outros fatores que determinam o que fazemos e o que deixamos de fazer. A força de vontade da maioria das pessoas desmorona frente à força desses sinais internos e externos. Estes são os fatores que acredito estarem causando a epidemia de ganho de peso, obesidade e doença metabólica, e eles não têm nada a ver com a vontade ou preguiça das pessoas.
Genética e Fatores Pré-Natais
A saúde é especialmente importante no início da vida, pois afeta tudo o que vem depois. Muita coisa é determinada, na verdade, ainda no útero da mãe.(1) A dieta e escolhas da mãe são de extrema importância, e podem influenciar os futuros comportamentos e composição corporal do bebê. Estudos demonstram que mulheres que ganham muito peso na gravidez têm normalmente filhos mais pesados quando estes estiverem com 3 anos de idade.(1) Da mesma forma, crianças que têm pais e avós obesos têm maior chance e serem obesas do que crianças que tenham pais e avós com peso normal.(1, 2) Os genes que recebemos dos nossos pais podem determinar se vamos ganhar muito peso ao não ao longo da vida.(1) Embora o que acontece no início da vida e fatores genéticos não sejam responsáveis exclusivos pela obesidade, contribuem no sentido de predispor as pessoas a ganharem peso. Isso não quer dizer que a obesidade seja totalmente predeterminada, pois nossos genes não são tão imutáveis como parece. Os sinais que mandamos para esses genes podem ter um enorme efeito em quais genes se sobrepõe aos outros. Esses sinais são as nossas escolhas de estilo de vida e dieta.
Nascimento e Hábitos da Infância
Não se sabe a razão, mas crianças nascidas de cesariana têm maior propensão a serem obesas.(1) Isso também se aplica a bebês alimentados com fórmula, que tendem a ser mais pesados do que aqueles amamentados pela mãe.(1) A razão pode estar na formação inicial da colônia de bactérias residentes no aparelho digestivo, o que pode afetar o modo como nosso corpo reserva gordura.(1, 2) Criar hábitos alimentares saudáveis logo nos primeiros anos de vida pode ser a maior forma de prevenir a obesidade e doenças que a acompanham.(1, 2) Crianças que desenvolvem gosto por comidas saudáveis ao invés de comida processada têm maior chance de manter um peso normal ao longo da vida. Quase metade das crianças obesas continuará obesa na adolescência, e 4 em cada 5 adolescentes obesos serão adultos obesos.(1)
Comidas Processadas "Superpalatáveis"
Comidas processadas hoje são pouco mais do que ingredientes refinados misturados a uma porção de produtos químicos. E não são apenas comidas, mas bebidas também, como refrigerantes e muitos tipos de sucos. Esses produtos são criados para serem baratos, durar bastante na prateleira e ter um gosto tão incrível, tão saboroso, que simplesmente não conseguimos parar de comer.(1) Ao fazer as comidas "superpalatáveis" ou "supersaborosas" os fabricantes garantem que comeremos muito, que compraremos mais para comer tudo e compraremos novamente.
Vício em Comida
Essa comida altamente processada, projetada para ser "supersaborosa", causa uma estimulação poderosa do centro de recompensa de nosso cérebro.(1) Sabe o que mais tem o mesmo efeito em nosso cérebro? Drogas como álcool, cocaína e nicotina. A verdade é que algumas pessoas podem ficar totalmente viciadas nessas comidas. As pessoas acabam perdendo o controle sobre seus hábitos alimentares, assim como um alcoólatra perde o controle sobre o uso do álcool.(1) Isso acontece com muito maior frequência do que você pode imaginar. Você com certeza conhece alguém, por exemplo, que toma aquele famoso refrigerante de Cola várias vezes ao dia. É bem sabido e comprovado que esse refrigerante tem alto potencial viciante. Vício é um assunto complexo com base biológica que pode ser bem difícil de superar. Quem se torna viciado em algo perde sua liberdade de escolha. A bioquímica do cérebro toma conta e começa a fazer escolhas que normalmente não são boas para o viciado.(1) Entre os obesos, 1 em cada 4 pessoas pode ser viciada em comida.
Disponibilidade de Comida
Houve no mundo, nas últimas décadas, um aumento gigantesco na disponibilidade de comida, especialmente comida processada. Postos de gasolina e qualquer lojinha agora oferecem produtos alimentares tentadores, verdadeiras bombas de açúcar, químicos e gorduras, de forma que comer por impulso se tornou extremamente fácil. Outro problema grave é que comida processada é normalmente mais barata do que comida de verdade. Algumas pessoas, especialmente em regiões pobres, nem mesmo têm acesso a comida de verdade. Os mercadinhos dessas áreas vendem refrigerantes, pão de forma branco, doces, margarina, comidas altamente processadas que duram na prateleira. Como isso pode ser uma questão de escolha se na verdade as pessoas não têm escolha?
Educação alimentar errada
Apesar da importância de uma nutrição correta, crianças e adultos geralmente não são ensinados como comer corretamente. Ensinar às crianças quais são os alimentos corretos, a importância de uma dieta saudável e nutrição apropriada, as ajuda a fazer melhores escolhas mais adiante na vida. Essa é a base dos hábitos alimentares que levarão para a vida adulta.(1, 2)
Marketing Agressivo (direcionado especialmente às crianças)
A indústria de alimentos processados é muito agressiva com seu marketing.(1) Suas táticas podem ser antiéticas e eles constantemente anunciam produtos nada saudáveis como se nos fizessem bem.(1, 2, 3) Muito desse marketing é direcionado diretamente às crianças, que estão se tornando obesas, diabéticas e viciadas em produtos que nem deveriam ser chamados de comida. Isso tudo está acontecendo antes mesmo que essas crianças tenham idade suficiente para tomar decisões conscientes sobre sua saúde.
Desinformação
Em todo o mundo as pessoas estão sendo informadas de modo errado ou falso sobre saúde e nutrição.(1, 2) A principal razão para isso é que as grandes companhias produtoras de alimentos patrocinam os cientistas e as organizações de saúde que dão suporte às declarações e ideias mais interessantes do ponto de vista financeiro. O único intuito é nos influenciar com suas pesquisas e recomendações.(1, 2, 3) Até a informação oficial promovida pelo governo parece ser planejada de modo a proteger interesses de empresas às custas da saúde da população. Não vou nem entrar em detalhes sobre o que se diz por aí sobre bacon, banana, leite, sal… Mas adianto que temos sido mal informados tem muito tempo, e o que acreditamos ser verdade não passa disso, uma crença. Uma crença sem base científica.(1, 2, 3) Como então podemos tomar melhores decisões se as informações a que somos expostos estão aí para nos enganar? Felizmente isso está começando a mudar.(1, 2)
Sono
Desde quando é motivo de orgulho dormir pouco? Pessoas que dormem nove horas por dia são chamadas de preguiçosas, enquanto aquelas que em cinco horas já pularam da cama são consideradas bons exemplos. Dormir mal é ligado a doenças cardíacas, diabete e depressão, além de ser um enorme fator de risco para obesidade. Isso mesmo, dormir pouco ou mal engorda!(1, 2, 3, 4) Além disso, a falta de uma boa noite de sono pode nos fazer ter mais fome. Também nos deixa cansados e com pouca motivação para comer direito e fazer exercício.(1) Um estudo revelou que homens jovens mantidos em regime de privação de sono por apenas uma semana desenvolvem resistência à insulina e gastam menos energia quando em repouso.(1) Outra pesquisa sugere que perder apenas 30 minutos de sono por dia pode apresentar consequências a longo prazo para o peso e metabolismo corporais.(1) Durma pouco por apenas 3 noites, umas 4 horas, e o nível de gordura no sangue permanecerá elevado, ao invés de acontecer uma redução gradual durante o sono. Esse nível aumentado reduz a sensibilidade à insulina e leva, com o tempo, à resistência.(1, 2, 3) A privação constante do sono, por problemas respiratórios ou outras causas, pode dobrar o risco de crianças se tornarem adolescentes obesos. Uma noite apenas de privação de sono tem pior efeito na redução da sensibilidade à insulina que uma dieta de "junk food" durante 6 meses. É isso mesmo, não dormir uma noite diminui mais a sensibilidade à insulina do que comer porcarias por meio ano!(1) Estamos dormindo muito menos do que dormíamos no passado, e o problema não para por aí. A qualidade do nosso sono também vem caindo. Sabe onde está o maior problema? Está no uso de luz artificial, telas de computadores, smartphones e televisores à noite. A exposição noturna à luz altera nosso ritmo circadiano, perturba o ciclo natural de dormir e despertar, que é crucial para o bom funcionamento do corpo e mente.(1, 2) Essa luz azulada que emitem acaba contribuindo para a obesidade, nos fazendo mais propensos ao ganho de peso e à síndrome metabólica, câncer e depressão.(1, 2, 3, 4) O bom sono é tão importante quanto uma boa dieta e exercício para nossa saúde, e é tão desprezado.
Poluição
Pois é, agora até respirar engorda!(1) A poluição provocada pela circulação de veículos, a queima de carvão para geração de energia, a fumaça dos cigarros e alguns compostos presentes em certos plásticos, pesticidas e solventes são as maiores fontes de preocupação, com suas partículas minúsculas e agressivas capazes de detonar inflamações generalizadas e alterar o metabolismo e a produção hormonal. No curto prazo os efeitos são mínimos, mas ao longo de vários anos esse contato com poluentes pode ser suficiente para causar doenças graves que vão além dos distúrbios respiratórios comumente associados à poluição.(1) O mecanismo exato ainda está em discussão, mas experimentos sugerem que a poluição do ar detona uma reação em cadeia no organismo. Essas partículas irritantes podem liberar no sangue uma enorme quantidade de moléculas inflamatórias, chamadas citocinas. Isso interfere na resposta à insulina e bagunça os hormônios e o processamento do apetite pelo cérebro. Tudo isso atrapalha o equilíbrio de energia do organismo, levando a uma série de problemas no metabolismo, como a diabetes e a obesidade, além de problemas cardiovasculares como a hipertensão.(1, 2) Os cientistas se preocupam especialmente com os efeitos nas crianças, e alguns chegam a considerar a hipótese de que os poluentes que uma gestante respira podem alterar o metabolismo dos bebês, tornando-os mais propensos à obesidade.(1, 2, 3) Estudos já concluíram que crianças que vivem em área com elevado tráfego rodoviário são mais gordas.(1, 2) Crianças também estão sujeitas à irritação das vias respiratórias e a quadros infecciosos. Em geral, o motivo mais comum é o crescimento exagerado das amígdalas e da adenoide, o que prejudica a oxigenação do organismo como um todo durante o sono. Como já vimos, noites mal dormidas podem levar ao ganho de peso, além de serem a origem de problemas comportamentais e de aprendizagem, como hiperatividade e agressividade. Fique atento, um dos primeiros sintomas é o ronco.(1) Os riscos podem estar dentro de casa também, pois o fumo passivo leva a um aumento de peso mais rápido em crianças e adolescentes. As soluções são conhecidas, mas difíceis de colocar em prática: diminuir a poluição atmosférica, redesenhar as ruas para que pedestres e ciclistas fiquem menos expostos diretamente às emissões, aumentar o número de purificadores de ar em casas, escolas e escritórios. Também se deve evitar o exercício ao ar livre em dias de muita poluição, ou ao menos evitar os piores horários. Não fumar, ao menos dentro de casa, ajuda muito.
Remédios e Condições de Saúde
Muitas doenças e condições de saúde necessitam de remédios para serem tratadas. Infelizmente o ganho de peso é um efeito colateral comum de muitas medicações. Estão aí incluídos os remédios para diabetes, antidepressivos e antipsicóticos.(1) Essas medicações podem aumentar o apetite, reduzir o metabolismo, fazer com que o corpo passe a armazenar mais gordura ou alterar sua capacidade de queimar gordura. Veja bem, não é uma "deficiência de força de vontade" o que é causado pelas medicações. Além disso, algumas condições de saúde podem predispor as pessoas a ganhar peso. Um exemplo é o hipotireoidismo.(1, 2, 3)
Exercício
Você não deveria fazer exercício com o objetivo de queimar calorias. As calorias queimadas durante o exercício são normalmente insignificantes, podem ser repostas facilmente ao comer um pouquinho a mais na próxima refeição. Ou você acredita mesmo que consegue fazer exercício e comer menos? Qual é a chance de que você, com fome, vá ter energia para se exercitar, por anos? Isso não é sustentável.(1) Entretanto, não me entenda mal, exercício é fundamental tanto para a saúde física quanto mental. Exercício, a longo prazo, pode ajudar a perder peso melhorando o metabolismo, aumentando a massa muscular e fazendo a gente se sentir incrível. Mas é muito importante que se faça o tipo correto de exercício. Tempo na esteira ou na bicicleta dificilmente vai dar bons resultados e quando feito demais pode até levar ao ganho de gordura. Quando uma pessoa realiza treinos mais longos, com baixa intensidade (aeróbios), além de ter uma queda do metabolismo, tende a liberar alguns hormônios que podem ser muito negativos para o objetivo de emagrecer. Isso até resulta em perda de peso, mas da pior forma possível. Veja bem, o que se está perdendo nesse caso é a massa magra, os músculos. O efeito é pequeno sobre a gordura corporal. Já os exercícios de curta duração e alta intensidade são o oposto dos aeróbios. Levam não só ao consumo energético durante a atividade física (que normalmente é menor do que em exercícios prolongados), mas têm influência também nos períodos de recuperação pelos estímulos hormonais que ocorrerão. Ocorre queima de calorias por muitas horas após o exercício, assim como ativação de enzimas ligadas à utilização da gordura corpórea como energia, além de melhora da resistência à insulina e de outros indicadores importantes de saúde.(1, 2) Musculação com cargas altas aumenta a massa magra e influencia de modo positivo nos hormônios, o que ajuda muito na perda de peso. Trabalhos com elevadas repetições, baixos níveis de esforço e baixas cargas não são um bom caminho. Treinos intervalados de alta intensidade são uma excelente maneira de entrar em forma que ainda por cima melhoram o metabolismo e aumentam os níveis de hormônio do crescimento, tão importante para uma vida saudável. Além de mais efetivos, treinos intensos têm menor duração e menor frequência semanal. Como a falta de tempo é um dos maiores motivos para o sedentarismo, esses treinos são a solução ideal para perda de gordura, além de aumentarem a chance de adesão a programas de exercícios. Pode tentar, mas você não consegue correr mais do que uma má dieta.(1, 2)
Estrogênio e Testosterona
Estrogênio é o hormônio sexual feminino, secretado pelos ovários. Umas das funções desse hormônio é influenciar uma enzima chamada lipase lipoproteica - LPL -, que por sua vez "puxa" gorduras da corrente sanguínea para dentro de qualquer célula a que esteja ligada.(1) Quando os níveis de estrogênio estão normais, a atividade da LPL é controlada e o corpo acumula pouca gordura. Mas se há pouco estrogênio há também mais LPL nas células de gordura, o que faz com que o corpo acumule gordura demais. É isso que faz engordar as mulheres que tiveram os ovários removidos ou passaram pela menopausa.(1, 2) O hormônio sexual masculino, testosterona, age da mesma forma, mas a LPL apresenta maior ação nos tecidos gordurosos da barriga. Após as menopausa a atividade da LPL na região abdominal das mulheres se equipara à dos homens e elas começam a acumular gordura ali também.(1, 2)
Poderosos "Hormônios da Fome"
Fome e alimentação descontrolada não são causados simplesmente por gula ou falta de força de vontade. A fome é controlada por hormônios muito poderosos, envolvendo áreas do cérebro responsáveis por desejos e recompensas.(1) Grande parte dos obesos tem a secreção e/ou recepção desses hormônios desreguladas, o que altera o comportamento alimentar e faz com que a vontade de comer mais e mais seja quase irresistível.(1, 2, 3) Quando comemos nosso cérebro secreta dopamina e outros químicos que nos dão prazer. Esta é a razão pela qual a maioria de nós adora comer. É um sistema que evoluiu para garantir que comêssemos o suficiente para ter toda a energia e nutrientes de que precisamos.(1, 2, 3) Pois a comida industrializada é feita de uma forma que acaba liberando muito mais desses hormônios. Assim sentimos muito mais fome e prazer do que seria normal, levando a um ciclo vicioso.
Resistência à Leptina
Leptina é um hormônio importante na regulagem do apetite e metabolismo.(1) É produzido pelas células de gordura e sua função é sinalizar ao cérebro que estamos "cheios" e devemos parar de comer. A leptina regula, assim, a quantidade de comida que ingerimos e a energia que gastamos, além de quanta gordura armazenamos.(1) Quanto mais gordura uma célula de gordura tiver, mais leptina vai produzir. Então pessoas obesas produzem grandes quantidades de leptina e deveriam se sentir satisfeitas antes, correto? Assim não comeriam tanto. Acontece que obesos tendem a ter uma condição chamada Resistência à Leptina, uma das principais causas da obesidade. Ainda que seus corpos produzam muita leptina, o cérebro não recebe essa informação de forma correta e "pensa" que está passando fome, mesmo tendo armazenada mais gordura do que precisa.(1) Isso causa mudanças fisiológicas e de comportamento, numa tentativa de armazenar a gordura que estaria em falta.(1) Aumenta a fome e o gasto de energia diminui, de modo a prevenir a desnutrição. Usar a "força de vontade" contra os sinais de fome e preguiça que se instalam é quase impossível para muitas pessoas. Alimentação exagerada e preguiça não são causas do sobrepeso, e sim consequências ou sintomas. Você não engorda porque come demais e gasta energia de menos. É o contrário: você come demais e gasta menos energia porque está engordando.
Insulina
A insulina é outro hormônio extremamente importante, que regula entre outras coisas o armazenamento e produção de energia. Seu papel principal é regular a quantidade de nutrientes circulando na corrente sanguínea. Embora regule principalmente o açúcar no sangue, também afeta a queima de proteínas e gorduras.(1) Ela faz nosso corpo guardar energia nas células de gordura e impede que as células musculares queimem gorduras da corrente sanguínea, queimando apenas açúcares. Qualquer gordura que conseguir escapar das células para o sangue acaba sendo armazenada novamente em alguma célula de gordura. Devido a várias razões, às vezes as células param de responder da forma esperada à insulina, ou seja, se tornam "resistentes" à insulina. O corpo então produz mais insulina, para que as células respondam da forma esperada, o que faz piorar essa "resistência" das células. Com o tempo o problema leva a danos no pâncreas - que produz a insulina -, altos níveis de açúcar no sangue - o que é tóxico - e diabetes tipo 2, entre várias outras doenças graves.(1, 2) Os níveis elevados de insulina no corpo fazem com que os nutrientes sejam seletivamente armazenados nas células de gordura, levando ao ganho de peso e obesidade. A Resistência à Insulina tem como principais causas a alimentação exagerada, ganho de peso, obesidade e gordura visceral - a famosa barriga de cerveja. Entretanto, pessoas magras também podem ser resistentes à insulina.(1, 2, 3) Há outras várias potenciais causas, entre elas problemas com as bactérias benignas do nosso sistema digestivo, o alto consumo de frutose, inflamações, e falta de atividade física.(1, 2, 3, 4, 5) Se você tem sobrepeso ou é obeso, especialmente se tem muita gordura na região da barriga, se tem baixo HDL - o "bom" colesterol - ou triglicerídeos acima do normal, as chances são de que você seja resistente à insulina.(1, 2)
Açúcar
Por fim, o pior componente da dieta moderna. Quando consumido em excesso, o açúcar muda a bioquímica e hormônios do corpo, contribuindo em muito para o ganho de peso e todos os males que se seguem. O açúcar adicionado aos alimentos processados - basta ler o rótulo, é de assustar como quase tudo tem adição de açúcar - é metade glicose e metade frutose. O maior problema está na frutose, que em excesso causa elevação dos níveis de insulina e resistência à insulina, pode causar resistência à leptina e não sacia da mesma maneira que a glicose. Isso acaba contribuindo para o armazenamento de energia nas células de gordura e obesidade.
Para Pensar
Não use este texto como desculpa para desistir e decidir que o seu destino é mesmo ser gordo e doente. O meu objetivo com o texto é mostrar às pessoas quais são os verdadeiros fatores responsáveis por essa epidemia de obesidade. Não é uma questão de "culpa individual", preguiça ou gula. A não ser que haja uma condição de saúde, o controle do seu peso e gordura ainda está em suas mãos. É possível emagrecer e permanecer magro. A informação para isso está cada vez mais disponível, basta estar aberto, se perguntar se o que você vem fazendo é o correto ou está levando a engordar e adoecer. Normalmente dá trabalho, não é fácil, requer algumas mudanças de estilo de vida, mas muitas pessoas têm sucesso mesmo tendo muitas coisas contra elas. Você também pode vencer este problema. Ah, ok, os obstáculos! Todos têm obstáculos. Verdade. O Obama tem, o Guga tem, a Fátima Bernardes tem. Até eu tenho obstáculos, imagina só! Só porque as pessoas são bem-sucedidas não quer dizer que não tenham suas pedras no caminho. Agora, o que essas pessoas fazem é superar. Elas superam os problemas e obstáculos. Ninguém nasce um sucesso. Ninguém é bem sucedido logo no início. Ok, ok, algumas pessoas têm uns obstáculos um pouco - ou um tanto - maiores. Mas isso é irrelevante, isso é só um teste. Família, dívidas, três empregos, quatro filhos, pé quebrado, ou mesmo dormir no chão da sala de um amigo. Ou pior, a gordura é tanta que fica difícil caminhar até a porta, você está desempregado e tem um cunhado maluco que te enche a cabeça e atrapalha a vida 24 horas por dia. Tá tudo bem, você nasceu para vencer. Isso tudo é só um teste. A pergunta importante aqui é a seguinte: você vai superar esses obstáculos e sair dessa mais forte? Ou vai ficar na mesma, seguindo o padrão de sempre, esperando lá no fundo que um dia tudo melhore mas na verdade vendo o barco afundar? É contigo determinar se esse obstáculo é algo a ser superado. Faz o seguinte, repete comigo: "Essa m**** é temporária, eu vou superar!" Eu gosto muito de uma pequena frase em Inglês, "relentless forward motion". Quer dizer Movimento à Frente Incansável. Ou seja, superação pura, sem se entregar, sem desistir. É focar em um objetivo e não parar até alcançá-lo. Não estou tentando dar uma palestra motivacional aqui. Estou só te dando a real. Se decidiu fazer algo, superar algo, não desista. Simples assim.
submitted by MarceloMosmann to brasil [link] [comments]


Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ... pablo do arrocha unico contato Estou no cadastro único mas não recebo bolsa família? Como recebo o auxílio emergencial? GABILY - MEU EX, ME PEGA VAI VAI, ME BOTA VAI VAI,ME PUXA VAI VAI ( W7 MARTINS ) DJ 2F CDD Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ... Número oficial da MC Mirella Cuidando da minha Mãe - parte 1 Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ... Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ... Estou no CadÚnico da Minha Mãe - Vou Receber o Auxílio ...

Mãe protege, e bebê é único sobrevivente de queda de avião ...

  1. Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ...
  2. pablo do arrocha unico contato
  3. Estou no cadastro único mas não recebo bolsa família? Como recebo o auxílio emergencial?
  4. GABILY - MEU EX, ME PEGA VAI VAI, ME BOTA VAI VAI,ME PUXA VAI VAI ( W7 MARTINS ) DJ 2F CDD
  5. Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ...
  6. Número oficial da MC Mirella
  7. Cuidando da minha Mãe - parte 1
  8. Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ...
  9. Erick Vinicius de belforoxo héliopolis número contato ...
  10. Estou no CadÚnico da Minha Mãe - Vou Receber o Auxílio ...

Enjoy the videos and music you love, upload original content, and share it all with friends, family, and the world on YouTube. o sonho da vida dele no programa do Raul Gil para dançar🙌 Eu tenho um curso de leitura facial On-Line que está disponível no site oficial do Dr. Peter Liu: https://www.peterliu.com.br, Para quem quiser fazer este curso, basta acessar o site ou entrar ... Número oficial único e verdadeiro do mc bruninho - Duration: 1:56. Poxa Bella! 75,332 views. 1:56. Mc mirella testa dynho alves! - Duration: 4:16. manuu vieira foda Vieira Alves 485,528 views. ESTOU CADASTRADO NO CADASTRO ÚNICO DA MINHA MÃE - ESPOSA etc RECEBO os 600,00 ?? ... Audit Azevedo 111,999 views. 4:07. Auxilio 600 - Quem tem Cadastro Único como fazer? como receber? ... Sonho ser dançarino 🕺 e ir no programa do Raul Gil 😭🙌pra deus 🙌 nada é impossível Estou no CadÚnico da Minha Mãe - Vou Receber o Auxílio Emergencial Separado? Neste vídeo falamos sobre o Auxílio Emergencial do governo, nos valores de R$600... divulgue sua mÚsica conosco : entre em contato com o nÚmero : 021 99366-4775 ::: sigam - me nas redes sociais ::: :::::se inscrevam no canal e ative as noti... sonho dele e no programa do Raul Gil para dançar🙌 rasgou se numero o unico contato